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27 de novembro de 2021
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Com informações do InfoGlobo

EAST LONDON, África do Sul — Mesmo enquanto milhares de pessoas morriam e outras milhões perdiam seus empregos em meio à pandemia de Covid-19 na África do Sul, no ano passado, Thembakazi Stishi, uma mãe solo, foi capaz de alimentar sua família com o apoio regular do pai, um mecânico em uma fábrica da Mercedes.

Quando uma nova onda da Covid-19 chegou em janeiro, o pai de Stishi foi infectado e morreu em poucos dias. Ela procurou trabalho, e até bateu de porta em porta oferecendo faxina por pouco mais de R$ 50, sem sucesso. Pela primeira vez, ela e seus filhos vão dormir com fome.

“Tento explicar que nossa situação é diferente agora, ninguém está trabalhando, mas eles não entendem”, disse Stishi, de 30 anos, enquanto a filha de 3 anos puxava sua blusa. “Essa é a parte mais difícil”.

A catástrofe econômica deflagrada pela Covid-19, agora em seu segundo ano, atingiu milhões de pessoas como Stishi e sua família, que já viviam precariamente. Agora, na África do Sul e em muitos outros países do continente, muitos foram empurrados para o abismo.

Estima-se que 270 milhões de pessoas enfrentarão escassez de alimentos com potencial risco de vida este ano — em comparação com 150 milhões antes da pandemia —, de acordo com análises do Programa Mundial de Alimentos (PMA), a agência de combate à fome das Nações Unidas. O número de pessoas à beira da fome, a fase mais severa de uma crise alimentar, saltou para 41 milhões de pessoas atualmente, de 34 milhões no ano passado, mostrou a análise.

O PMA acionou o alarme na semana passada em um relatório conjunto com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), alertando que “conflitos, repercussões econômicas da Covid-19 e a crise climática devem levar a níveis mais elevados de insegurança alimentar aguda em 23 focos de fome nos próximos quatro meses”, principalmente na África, mas também na América Central, Afeganistão e Coreia do Norte.

A situação é particularmente desoladora na África, onde surgiram novas infecções. Nos últimos meses, organizações de ajuda alertaram sobre a Etiópia — onde o número de pessoas afetadas pela fome é maior do que em qualquer lugar do mundo — e o Sul de Madagascar, onde centenas de milhares estão perto de passar fome após uma seca extraordinariamente severa.

“Nunca vi isso tão ruim globalmente como agora”, disse Amer Daoudi, diretor sênior de operações do PMA, descrevendo a situação da segurança alimentar. “Normalmente você tem duas, três, quatro crises, como conflitos, fome, ao mesmo tempo. Mas agora estamos falando de uma série de crises significativas acontecendo simultaneamente em todo o mundo”.

Na África do Sul, normalmente uma das nações com maior segurança alimentar do continente, a fome reverberou em todo o país. No ano passado, três ondas devastadoras do coronavírus tiraram a vida de dezenas de milhares de chefes de família, deixando seus familiares impossibilitados de comprar comida.

O fechamento de escolas durante meses eliminou as merendas gratuitas que alimentavam cerca de 9 milhões de alunos. Uma quarentena restrita do governo no ano passado também fechou comércios informais de alimentos nos bairros, forçando alguns dos residentes mais pobres do país a viajar para mais longe para comprar mantimentos e fazer compras em supermercados mais caros.

Estima-se que 3 milhões de sul-africanos perderam seus empregos e elevaram a taxa de desemprego para 32,6% — um recorde desde que o governo começou a coletar dados trimestrais em 2008. Nas partes rurais do país, secas de vários anos mataram o gado e prejudicaram a renda dos agricultores.

O governo sul-africano forneceu algum alívio, introduzindo auxílios mensais equivalentes a pouco mais de R$ 120 no ano passado e outros subsídios sociais. Ainda no final do ano, quase 40% de todos os sul-africanos foram afetados pela fome, de acordo com um estudo acadêmico.

Na região de Karoo, as taxas da pandemia foram exacerbadas por uma seca que se estende há oito anos, transformando uma paisagem outrora exuberante com arbustos verdes em um acinzentado opaco.

Em sua fazenda de quase mil hectares, Zolile Hanabe, de 70 anos, vê mais do que sua renda diminuindo. Em 2011, quase 20 anos após o fim do apartheid, ele usou as economias do trabalho como diretor de uma escola para alugar uma fazenda, comprando cinco cabeças de gado e 10 cabras Boer. Elas pastavam nos arbustos e bebiam de um rio que cortava a propriedade. A fazenda era o seu “legado”, disse Hanabe.

Mas, em 2019, ele ainda estava arrendando a fazenda e, conforme a seca se intensificou, o rio secou, 11 animais morreram e os arbustos murcharam. Hanabe passou então a comprar ração para manter vivo o restante do plantel. Depois, com a chegada da pandemia, demitiu dois de seus funcionários para diminuir o risco de infecção. Os vendedores de ração também cortaram funcionários e aumentaram os preços, apertando ainda mais seu orçamento.

“Talvez eu pudesse sobreviver a uma dessas crises”, disse Hanabe. “Mas ambas?”