Amazônia: Sebastião Salgado vê estrago de Bolsonaro e espera reestruturação da Funai

Com informações da Folha de S. Paulo

SÃO PAULO – Não são as imagens da Amazônia em chamas que nos acostumamos a ver, nos últimos anos, em meio à alta de queimadas, que Sebastião Salgado traz agora para o público brasileiro. A Amazônia em preto e branco do fotógrafo é essa paisagem grandiosa, fora de qualquer escala humana, cortada por rios que parecem cortar a terra e o céu, enredada por uma neblina que engole seus grandes montes.

“Tenho a esperança de que minhas fotografias traduzam essa generosidade da Amazônia”, afirma ele, que abre em fevereiro uma exposição com sua série sobre a Floresta Amazônica no Sesc Pompeia, em São Paulo, depois de mostrar essas imagens em Londres, Paris e Roma.

Vista do rio Jutaí, no Amazonas, em 2017 (Sebastião Salgado/ Divulgação)

Foi para reforçar essa grandiosidade da selva que Lélia Wanick Salgado, organizadora da mostra, pensou uma iluminação que emanasse das próprias imagens, todas penduradas no teto. E é num tom idílico que Salgado retrata e narra esse espaço misterioso, para onde viajou cerca de 60 vezes em sete anos. “A Amazônia é um paraíso, a Amazônia não tem doenças. As que existem foram trazidas de fora”.

Há décadas essa visão que ele tem da floresta vem sendo construída. Salgado começou a fotografar a Amazônia ainda nos anos 1980, mas intensificou suas expedições no início dos anos 2000 durante o projeto “Gênesis”, feito em lugares intocados do planeta.

“Voltando para fazer essas fotografias eu constatei uma grande ferida na Amazônia, ela estava machucada. Vi regiões que, naquela época que eu tinha trabalhado, eram florestas totalmente virgens, e elas já estavam bem, bem destruídas. Aí vi que era o momento de fazer um trabalho maior”.

A exposição, que segue para o Rio de Janeiro em julho, no Museu do Amanhã, mostra esse percurso de quem foi descobrindo as entranhas da floresta.

As imagens aéreas, com os impressionantes rios voadores e chuvas torrenciais, se encaminham para as fotografias das imensas copas de árvores, adentrando a selva amazônica. Chegamos, então, a uma construção indígena onde ganham rosto os povos que habitam a região, com retratos de 12 comunidades.

“A minha maior curiosidade, ainda nos anos 1980, era em relação ao ser humano que eu ia encontrar dentro da Floresta Amazônica, e que era um ser humano que eu imaginava muito diferente de mim”, diz ele. “Mas descobri, imediatamente, que eles eram exatamente como eu. Tudo o que era sério e essencial para mim era sério e essencial para eles”.

Fotografias que agora chegam no Sesc Pompeia já foram publicadas numa série de reportagens sobre as expedições de Salgado, neste jornal, que acompanhou o contato do fotógrafo com as aldeias.

É uma espécie de radiografia das várias habitações possíveis de povos originários nesse espaço. Enquanto comunidades do alto Xingu já foram contatadas faz mais de 40 anos, os korubos só tinham deixado de ser isolados 15 meses antes de Salgado chegar à região para fotografar, por exemplo.

“Quem ajudou a montar esse programa foi a Funai (Fundação Nacional do Índio). Não a que hoje é dirigida por um delegado de polícia, que é uma instituição que, temporariamente, está sofrendo muito”, afirma Salgado. “Ela não representa mais as comunidades indígenas, mas é uma Funai que tem uma história colossal”.

O fotógrafo lembra que a destruição da Amazônia começou antes do governo de Jair Bolsonaro, mas também afirma que essa gestão tem tentado destruir uma série de instituições ligadas à proteção do meio ambiente, como toda a ação de proteção ao bioma amazônico que deve ser feito pelo Ibama.

Ainda que o cenário atual seja de desarticulação dos mecanismos que protegem esse ecossistema, Salgado acredita que tanto a instituição quanto a floresta não serão aniquiladas.

“Os antropólogos, sociólogos e indigenistas da instituição conseguiram preservar mais de 25% de todo o território amazônico e indígena graças ao grande trabalho da Funai ao longo dos anos. Dentro de um ano depois da mudança desse governo, a Funai volta a ser a Funai outra vez”, diz ele. “Ela tem um papel histórico determinante na Amazônia”.

Bela Yawanawá, da aldeia Mutum, na terra indígena do rio Gregório, no Acre, em 2016 (Sebastião Salgado/ Divulgação)

Além da negligência governamental, Salgado vê um impacto da crise climática na floresta, com secas que ele nunca tinha visto antes e que têm sido presentes no último ano.

Para chamar a atenção para a necessidade de preservar todo esse ecossistema, incluindo os povos originários que vivem ali, também faz parte da mostra uma programação de concertos de música clássica na Sala São Paulo, retomando composições de Villa-Lobos e Philip Glass para a Floresta Amazônica. Já os artistas Jean Michel-Jarre e Guga Stroeter fizeram músicas inéditas para a mostra no Sesc.

Depoimentos de lideranças indígenas exibidas na mostra, com nomes como o yanomami Davi Kopenawa, se somam a esse esforço de tentar aproximar o público das pautas que cercam a Amazônia — e Salgado espera levar algumas delas para a mostra no Sesc, algo que planejava antes dos casos de Covid-19 voltarem a subir com a variante Ômicron.

Nas fotografias de Salgado, os povos indígenas aparecem ora cercados pela mata gigantesca, ora em estúdios que ele conta ter montado embaixo de árvores — e que retiram esses povos do contexto de onde vivem.

“A riqueza ornamental dessas populações é imensa, e quando a floresta também tem essa riqueza, um de frente ao outro, às vezes não é possível dar um destaque”, diz ele, sobre o porquê isolou os indígenas em alguns de seus retratos. “Eu ficava sentado no estúdio esperando quem quisesse ser fotografado, e ali eu deixava cada um se colocar à sua maneira, como ele quisesse ser fotografado”.

Todas as cores desses adornos de povos originários e também da floresta desaparecem na já conhecida estética em preto e branco das fotografias de Salgado.

A escolha é antiga — ele diz que logo no começo da carreira percebeu que as cores o distraíam. Passar para a gama de cinzas dava a chance de se “concentrar no fato principal da foto”. “Conseguia transmitir algo nas gamas de cinza, e não mais de maneira escandalosa e acintosa como eram com as cores”.

É um preto e branco que, na vida real, não existe, lembra o fotógrafo. “Sou obrigado a entrar nesse mundo fantasma para poder restituir a realidade do que estou vendo. O preto e branco é uma ficção, e sou obrigado a entrar na ficção para me concentrar”.

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