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28 de janeiro de 2022
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Rômulo D’Castro – Da Revista Cenarium

ALTAMIRA (PA) — Foi às margens do rio Guamá que se agigantou o vilarejo desbravado por portugueses em 1616. O Brasil tinha pouco mais de 100 anos quando Francisco Caldeira Castelo Branco aportou na aldeia de índios Tupinambá e Pacajá. A missão era aumentar o domínio português e combater outros estrangeiros, como holandeses, ingleses e franceses. Em intermináveis batalhas, muitos morreram, incluindo povos nativos.

Após 406 anos, Belém se mantém firme como um dos principais cartões-postais do País. É lá que acontece uma das maiores celebrações católicas do mundo, o Círio de Nazaré, que arrebata milhões de fiéis e turistas que caminham pelas ruas da Cidade Velha, parte da capital onde tudo começou.

Belém também ostenta o Theatro da Paz, construído durante o auge da borracha quando, assim como Manaus (AM), a capital paraense era grande produtor da matéria-prima do látex, como lembra o historiador Ubirajara Umbuzeiro. “Belém e Manaus foram as cidades de suporte para que as pessoas no interior fizessem a extração e mandassem para os portos. De Belém, por exemplo, a borracha era levada toda para o exterior”.

Celebrado como um dos teatros mais bonitos do Brasil, o Theatro da Paz completa 144 anos no próximo dia 15 de fevereiro. (Foto: Thiago Araújo / ARrquivo AG. Pará. Data: 11.02.2016 Belém – Pará)

Umbuzeiro também destaca que Belém foi a capital que ‘aportuguesou’ esta parte do País. “Belém foi um trampolim para que as forças portuguesas expulsassem holandeses e ingleses que estavam por aqui”, explica o historiador.

Cidade de quem chega e de quem vai

Com cerca de 2 milhões de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capital onde chove toda tarde recebe e se despede dos seus a todo instante. A vida em Belém pulsa no ritmo frenético de cidade grande. Foi onde nasceu a jornalista Ageíse Navarro. Hoje, a belenense mora em Santarém, Oeste do Pará, mas nunca esqueceu a terra natal. “Me proporciona essas doces lembranças da infância, da visita na casa da vó, da culinária, do tacacá no final da tarde”, lembra.

O também jornalista Lucas Trevisan fez caminho contrário. Natural de Monte Alegre, pequeno município do interior paraense, Lucas mora, atualmente, em Belém, onde trabalha como repórter. “O Pará inteiro é lindo, mas Belém tem uma representatividade única, com cheiros, cores, sabores. E o melhor de tudo é o povo que faz Belém ser o que é, apaixonante e bonita”, celebra o jornalista.

Para o escritor Edinho Leite, que nasceu na capital, foi para o interior e hoje retornou para Belém, a cidade das mangueiras é uma espécie de ‘poema perfeito’ com direito a afagos e dramas. “Belém é tomar uma cuia de tacacá quente em pleno meio-dia com sol escaldante. E é, também, visitar locais sagrados, museus e parques com medo ao ver uma moto se aproximando”.

Mercado Ver-o-Peso, na orla de Belém. (Divulgação)

Joaquim Freitas nasceu em Porto Trombetas, distrito minerador de Oriximiná, região Oeste. Na capital foi onde tudo aconteceu na vida do agora advogado especialista em assuntos criminais. “Eu devo muito a essa cidade que me adotou, onde iniciei minha formação jurídica e onde, depois de 15 anos, pude retornar para contribuir com trabalhos jurídicos”, comemora o advogado que também é músico.

Cidade das mangueiras, do Ver-o-Peso, do Círio…

Além de ser conhecida como ‘Cidade Morena’, a capital paraense também pode ser chamada ‘Cidade das Mangueiras’ ou ‘Mangueirosa’. A origem dos apelidos acompanha a história de arborização que Belém ganhou no século passado, quando mangueiras foram plantadas em diversos pontos da cidade. A ideia inédita foi colocada em prática para ajudar a amenizar o calor, já que as árvores têm copas abundantes e podem chegar a 25 metros. E não são poucas. Entre 12 e 13 mil mangueiras podem ser encontradas em parques, praças e avenidas do Centro e de outros bairros.

Uma das principais avenidas de Belém, com dezenas de mangueiras. (Divulgação)

As mangueiras de Belém foram tombadas como Patrimônio Histórico e Ambiental. São a cara da capital paraense, assim como o mundialmente conhecido Mercado Ver-o-Peso. Com 397 anos, é considerado um dos mais antigos do País, tendo a maior feira ao ar livre da América Latina. Ver-o-Peso é, ainda, uma das ‘7 Maravilhas do Brasil’.

No espaço, é possível encontrar de tudo. Do cheiro-verde à farinha de mandioca, do camarão fresco ao tradicional açaí com peixe frito. A estudante Brenna Figueiredo já andou muito pelos corredores de ferro que compõem o mercado e pelas bancas da feira livre. Além da variedade de produtos, as pessoas são o que mais impressionam, garante. “Eu faço parte dessa história. E eu sou muito grata pela cidade me acolher tão bem com sua diversidade cultural e encantos”.

Belém respira e exporta cultura, tradição e fé. Quem nunca ouviu falar do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a ‘Naza’, padroeira dos católicos paraenses? Em 2020, a tradicional festa não ocorreu por conta da pandemia. Já na edição 229, no ano passado, as restrições reduziram significativamente o público, mas parte do evento foi mantida.

Um pouco de história

O Círio de Nazaré aconteceu pela primeira vez em 1793. Começou como um pagamento de promessa de um dos líderes religiosos da época que saiam em procissão pelas ruas de Belém para agradecer por graças alcançadas. Atualmente, é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como uma das maiores representações da cultura brasileira.

Antes da pandemia, Círio de Nazaré reunia milhares de fiéis em frente à Catedral de Nossa Senhora de Nazaré. (Divulgação)

406 anos de história

Anos de sabores, aromas e mazelas de uma grande capital. Belém é para o Brasil pedaço significativo. Com economia forte, cultura peculiar e moradores nativos que se misturam aos que escolhem a cidade para viver, Belém tem a típica mistura brasileira, aquela que nos torna um povo otimista e alegre, mesmo quando tudo aponta para o caos.

A terra de todas as cores e ritmos orgulha-se, ainda, de ter o Carimbó do Pinduca, de Dona Onete e de Lia Sophia. É tanta coisa para comemorar que serão necessários outros 406 anos para descobrir um pouco mais dessa terra de encantos.

Assista ao vídeo: