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17 de maio de 2021

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Com informações do UOL

PARÁ – Em 2018, o Coletivo Jovem Tapajônico busca dialogar com a juventude indígena e ribeirinha da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, em Santarém e Aveiro, no Pará, falando sobre território, política, desmatamento, saúde e outros temas, principalmente por meio de oficinas e das redes sociais.

A ideia de formar o grupo surgiu depois que Walter Kumaruara, 25, e Stella Kumaruara, 19, participaram de uma formação sobre “Clima e Território”, que aconteceu em São Paulo. “Achamos que seria interessante criar um grupo que falasse a linguagem dos jovens. Precisamos conhecer nosso território, as ameaças que ele sofre e sua importância em nossas vidas”, diz Stella.

Walter diz que que essas trocas com a juventude são importantes para pensar questões políticas e a importância do voto para a população da região: “Tudo engloba o território, inclusive a política. Então a gente trabalha essa questão com a juventude para mostrar que eles também podem cobrar, que o voto deles faz muita diferença”, disse ele.

Uma das principais formas de atuação e resistência do Jovem Tapajônico, segundo Walter Kumaruara, 25, é usar a comunicação como arma. “A gente vê que a galera tem celular, né? Mas muitas vezes não consegue utilizar a internet a favor do seu território. Trabalhamos mais nessa parte de mostrar novas ferramentas para juventude indígena, de ensinar uma galera a editar vídeo, a convidar para participar de programas de rádio, para que eles possam mostrar o que há dentro das suas aldeias e comunidades”.

Música de Pabllo Vittar vira paródia

“Eita Vírus” Essa comunicação proposta por Walter tem dado certo. O coletivo, que hoje conta com outros dez jovens indígenas, vem ganhando destaque pelo trabalho de conscientização dos riscos da covid-19 nas comunidades. O grupo vem criando paródias de músicas de estrelas como Pabllo Vittar e Joelma para incentivar as pessoas a respeitarem o isolamento social e a usar máscara e álcool em gel, entre outras coisas.

A ideia de transformar sucessos de artistas famosos na região com letras de reflexão veio da necessidade de conseguir falar com as comunidades locais de uma forma mais acessível, segundo o grupo.

A 5ª e mais recente paródia sobre covid-19 criada pelos jovens é “Eita Vírus”, inspirada em “Clima Quente”, de Pabllo e Jerry Smith. Composta por Elismara Oliveira, 21, irmão de Stella,a letra diz: “Fim de semana sem curtição/ use sua máscara/ álcool em gel na mão….Olha bem parente/ eu sei que não tá contente/ mas olhe lá para a frente/ tem vacina chegando para ajudar/ a melhorar/ nosso Pará”. No clipe gravado com um celular na aldeia de Solimões, Elismara, Jamili Cardoso, 16, e Stefanny Kumaruara, 17, também aparecem fazendo uma coreografia.

O coletivo fez a paródia para alertar sobre a importância dos cuidados contra o Covid- 19 (Reprodução/instagram)

Stella e Elismara são as principais compositoras do grupo. As irmãs contam que vêm de uma família com muitos músicos e que como moram juntas costumam criar com mais facilidade. “Nós usamos uma linguagem bem regional nas letras, para que as pessoas não se confundam e entendam o que estamos querendo passar através da música, através da arte”, diz Stella.

As paródias mais recentes produzidas pelo coletivo falam sobre a importância dos cuidados contra o coronavírus e da necessidade de isolamento, mas também há outras que abordam assuntos ambientais como o desmatamento da Amazônia. As músicas postadas no Facebook e no Instagram também são tocadas em algumas rádios locais para chegar aos locais com pouco acesso à internet.

Resistir ao preconceito

De acordo com dados do último Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística), realizado em 2010, a população indígena no Brasil é de 817.963 pessoas. Destas, mais de um terço (315.180) vivem em áreas urbanas.

Stella é agora uma dessas indígenas que vivem na cidade. Ela, que saiu da aldeia para estudar farmácia na Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará),em Itaituba (PA), diz que ser uma jovem indígena no Brasil é uma tarefa difícil e de muitas lutas. “Nós, que somos acadêmicos, entramos em contato direto com o preconceito. Quando nós entramos na universidade é um caminho bem difícil a ser seguido. A gente tem muita luta, mas eu estou disposta a continuar resistindo, lutando para ter o meu lugar na sociedade”, conta.

Para Walter, mesmo com cada vez mais indígenas vivendo nos centros urbanos, o preconceito ainda é grande: “Ser um jovem indígena no Brasil já é entender que você vai ter que lutar por um espaço de fala, por um lugar dentro da cidade. É muito ruim a gente ter que resistir o tempo todo, né? Porque resistir não é a mesma coisa que existir. Então, a gente resiste muito tempo e acaba esquecendo de existir”.

Elismara, irmã de Stella, apesar de serem vítimas de preconceito, ser um jovem indígena também é ter orgulho de sua identidade e com ela fortalecer sua cultura. “É tornar mais forte o seu povo e reviver a sua inteligência”, diz, “Seguimos firmes e fortes na nossa luta.”