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20 de novembro de 2021
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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – O amor ao próximo, que aprendeu com o pai, levou Joana a doar alimentos a moradores de rua. O respeito, que aprendeu com seu avô, fez Marcos a cumprir o isolamento. O carinho com os mais velhos, que aprendeu com o pai, levou Paulo a fazer compras para o seu vizinho idoso. A pandemia de Covid-19 fez a humanidade resgatar valores antes esquecidos. Este ano, o “Dia dos Pais”, será diferente, onde histórias como as que acabamos de ler serão ecoadas por famílias, em todo o país. 

Com base nisso, a REVISTA CENARIUM homenageia todos aqueles que nos ensinaram muitos valores. Ao longo dessa semana nossa equipe ouviu histórias, onde o amor sem preconceito e a inclusão, caminham lado a lado nas famílias modernas e no novo modelo familiar de pluralidade. 

O modelo patriarcal deixou de ser único e novos caminhos se abrem para que certas diversidades possam ser exploradas como: famílias formadas com pai solteiro, mãe solteira, família com casais homossexuais entre outros que divergem do modelo de triangulação (pai, mãe e filho) que é comumente esperado pelos pais que se repita nas próximas gerações.

Relações afetivo-sociais entre pais e filhos

Evandro e Willian Lima e seus lindos filhos gêmeos, durante o casamento dos dois, em junho de 2019 (Evandro Lima/Arquivo pessoal)

O ano era 2005, o cabeleireiro Evandro Lima, 41 anos, não via o pai desde que descobriu sobre sua homossexualidade. Durante a visita, o cabeleireiro conheceu a esposa do seu irmão que estava grávida de dois meses, na época. O relacionamento dos dois [irmão dele e esposa] passava por momentos turbulentos, por serem jovens demais. Passado um tempo, já em outra visita ao pai, Evandro descobriu através de sua madrasta que a cunhada não queria os bebês e que supostamente iria abortá-los. Foi quando, segundo ele, tomou a decisão mais feliz de sua vida, a de ser pai, sem ao menos gerar os filhos biológicos, pois a gravidez era de gêmeos.

“Meu irmão ficou tão assustado de ter responsabilidade que rejeitou os bebês. Quando fui visitar meu pai novamente, minha madrasta me contou a intenção da minha cunhada em abortar o Bebê, que até então, era apenas um. Sem muita pretensão eu pedi que me dessem a criança. Como ela estava decidida a terminar o relacionamento, disse que pensaria. Uma semana depois, ela me falou que me daria o bebê e o pai biológico, que é meu irmão, concordou. Quando eles nasceram tomei um susto por ser dois bebês, mas como eu queria muito ser pai e havia dado minha palavra, segui adiante. Sem dúvida, foi a decisão mais feliz e certa da minha vida”, relembra o  cabeleireiro.

Quando Evandro conheceu o marido, o também cabeleireiro William Lima, 31 anos, ele já era pais de duas crianças. Os dois se conheceram em uma quadra esportiva, durante uma partida de vôlei, em 2008. Em 2019, o casal trocou alianças, com a participação e aprovação do casal de filhos, Carlos Eduardo e Carla Victoria, 14 anos.

“Sempre digo que pai é quem cria e sempre que tenho oportunidade, afirmo isso. Nossos filhos são nosso tesouro, são estudiosos, carinhosos e obedientes e tem tudo o que podemos dar. O preconceito ainda está intrínseco nas pessoas. Geralmente não guardo nada do que falam, apenas ouço os comentários e não trago como parte da minha família. Me sinto orgulhoso de ser um exemplo de pai presente, carinhoso, amoroso e trabalhador. Há muitos pais por aí que deixam as mães na mão, sem auxílio ou apoio algum”, orgulha-se Evandro.

O casal está junto há 12 anos e segundo o cabeleireiro, os filhos são criados com respeito e naturalidade. Carinho entre o casal, aponta Evandro, somente de forma respeitosa na frente dos filhos. Apesar dos dois serem esclarecidos, o casal tem o cuidado de não ferir a imagem dos adolescentes perante aos amigos. Apesar dos tempos serem outros, ainda há muito preconceito relacionado a filhos de casais homoafetivos no Brasil.

Evandro ressalta ainda que ele o companheiro lutam diariamente para fazer com que os filhos se tornem pessoas do bem e que não sofram retaliações por causa do preconceito existente na sociedade.

O personal trainer Leo Bezerra, 32 anos e o professor de crossfit Márcio Ferreira, 34 anos, também vivem uma relação harmoniosa de carinho e respeito com o filho adolescente. Os dois se conheceram na academia onde trabalhavam. Quando Leo conheceu o companheiro, Márcio já tinha um filho de seis anos, na época, do casamento anterior. Entretanto, a criança foi entregue ao pai, pela mãe, que não quis mais tomar conhecimento, conforme afirma o personal trainer.

Em 2014, os dois casaram no primeiro casamento coletivo realizado em Manaus. Na época, Pedro [usamos o nome fictício para proteger a criança], morava com a avó paterna e com a tia, irmã de Márcio. Após o casamento, os dois foram morar juntos e levaram Pedro para morar com eles. No entanto, para não confundir a cabeça da criança, o casal se relacionava como amigo.

“No início da relação sempre tivemos o cuidado de não expor o relacionamento para a criança e nos portávamos como amigos, diante dela, naquele primeiro momento. Quando fomos morar juntos, o menino veio morar conosco, pois ele morava com a avó paterna e a tia. Com o passar do tempo, tínhamos uma preocupação constante de como falar para uma criança pequena que eramos um casal. Foi quando buscamos ajuda de um psicólogo, que nos orientou a não dizer nada para a criança e esperar que ela mesma tivesse a curiosidade de nos perguntar o tipo de relação que vivíamos, porém, isso nunca aconteceu. Foi tudo acontecendo de forma natural e somos muito felizes”, conta Leo.

Segundo o personal, a relação do casal com o filho é a melhor possível. Atualmente Pedro* está com 12 anos, é um menino calmo e focado nos estudos. Os pais por outro lado, estão sempre atentos e a única preocupação é em dar o melhor para o desenvolvimento do filho.

“Agora ele está chegando na fase da adolescência, onde temos que ter um diálogo maior e estar presente nas ações que ele faça. Não temos o que reclamar do nosso filho. Ele sabe que pode contar conosco em tudo e estamos juntos para somar, pois carinho, atenção e diálogo, não falta na nossa família, que está junta há nove anos”, pontua.

Sobre preconceito o personal trainer explica: “Preconceito existe em qualquer lugar e por qualquer coisa. O importante é você fugir deste esteriótipo que não é seu e sim das outras pessoas. No início, o Pedro* tinha um pai branco e outro negro [eu], mas o tempo vai passando, ele foi crescendo e a mentalidade vai evoluindo também”, finaliza Leo, que preferiu não enviar foto da família para proteger o filho, que está na adolescência.

Lourenço Rebouças e o pequeno corintiano Lorenzo Mikael Chagas, 2 anos, no momento de afeto entre pai e filho (Lourenço Rebouças/Arquivo Pessoal)

O cinegrafista Lourenço Rebouças, 27 anos, orgulha-se de ser pai de primeira viagem, apesar do filho ter vindo em um momento difícil de sua vida, pois estava desempregado e morando na casa dos pais de sua esposa.

“O Lorenzo é a luz da minha vida. Meu primeiro e único filho. Ele veio de surpresa, no momento difícil, onde estava desempregado e morando com meus sogros. Mas quando ele nasceu trouxe a alegria que faltava em nossas vidas. Minha relação com ele é maravilhosa. Procuro ficar o máximo que posso na presença dele. Ser pai é maravilhoso, é um mistura de sentimentos que não sei explica. Ser pai é descobrir que o amor incondicional existe e o maior e mais sincero de todos está bem diante do nosso abraço”, diz emocionado o cinegrafista.

Isabella Valentina com os pais, Iasmyn e Rafael, em um momento de diversão da família (Iasmyn Almeida/Arquivo Pessoal)

A pequena Isabella Valentina, 5 anos, é miss Itacoatiara Mirim 2019. Segundo a mãe da menina, a pedagoga Iasmyn Almeida, 28 anos, Bella como é chamada pela família, já nasceu princesa. Com os cabelos dourados e olhos esverdeados a menina é o chamego do pai, o gerente comercial Rafael Costa, 27 anos.

Os pais de Isabella estão juntos há 10 anos e se conheceram através de amigos. Bella nasceu para alegrar a relação do casal que, na época, morava junto havia quatro anos. Rafael contou para nossa equipe a importância de ter um pai e também de ser um pai presente e amoroso para a filha.

“Para mim a importância do “Dia dos Pais” é ter o meu pai comigo e também saber o quanto é bom ser pai para minha filha. Minha maior dificuldade é conciliar o meu horário de trabalho e o meu tempo disponível para a Bella. Ela exige minha presença em tudo. Ela tem uma personalidade forte”, diz Rafael sorrindo sobre a filha.

Rafael Costa, a pequena Isabella Valentina e Iasmyn Almeida, orgulhosos durante o concurso de mini miss Itacoatiara, em 2019 (Iasmyn Almeida/Arquivo Pessoal)

Rafael orgulha-se de ter uma filha miss. Segundo ele, a relação entre pai e filha é ótima.

“Nosso convívio graças à Deus é ótimo. A coisa que mais gostamos de fazer juntos é comer [risos] toda noite não importa a hora que eu chegue em casa, ela sempre está me esperando para fazermos alguma coisa para comer antes de dormir. Aos domingos, onde estamos o dia todo juntos, estou sempre buscando algo diferente para ela se divertir. A mensagem que eu deixo para o “Dia dos Pais” é que independente das dificuldades que enfrentamos, nunca deixe seus filhos, pois só eles realmente nos fazem sentir o verdadeiro amor”, conclui o gerente comercial.

Nem tudo são flores

“Pai não declarado”. É essa expressão que aparece na certidão de 5,5 milhões de crianças no país que não têm a paternidade reconhecida. Mas, em muitos casos, o nome não significa presença. Segundo a Data Popular, existem 67 milhões de mães no Brasil, sendo que 31% (20 milhões) são solo. Os dados mostram uma realidade comum: a facilidade que os homens têm em optar por ser ou não responsável pelo filho.

Segundo informações divulgadas no portal Blitz Amazônico, um levantamento realizado pela Associação dos Notários e Registradores do Estado do Amazonas (Anoreg-AM), constatou que o percentual de registros de nascimento de crianças amazonenses sem o nome do pai na certidão de nascimento chegou a 10% nos primeiros seis meses deste ano. O número reflete um crescimento, quando comparado com os dados de 2018 e 2019.

Em números absolutos, até junho de 2020 foram registradas 22.178 crianças no Estado, sendo que 2.213 não tiveram indicação do nome do pai na certidão de nascimento. Em 2018, este número foi de 1.509 recém-nascidos (7,34%) do total de nascimentos no primeiro semestre. Em 2019 o número já havia subido, para 9,5% dos registros sem a inclusão do nome do pai, o que representou o total de 2.177 nascimentos no Estado.

Para o defensor público, Mário Wu, responsável pela primeira Defensoria Pública da Infância e Juventude Cível do Amazonas, que presta atendimento para as famílias com crianças e adolescentes sem a certidão de nascimento, esclarece a importância do documento para o reconhecimento dessas crianças e adolescentes na sociedade.

Segundo Mario Wu, as causas da falta da certidão variam de acordo com cada caso. “A falta dos registros em grande parte pode ser uma mãe usuária de drogas, que abandona seu filho na maternidade, por uma questão de abstinência. Outra questão, às vezes, é a falta de documento de seus pais, ou porque perdeu, extraviou e não providenciou outro. Ou, pelo extravio da declaração do nascido vivo, emitido pela maternidade. Em outros casos, a mãe só quer registrar se o pai tiver presente, pois ela entende que a responsabilidade é dos dois e por isso, a criança fica sem registro. Tem casos ainda em que a mãe entrega o documento para o pai e ele não registra o filho, simplesmente desaparece com o documento porque não quer assumir o compromisso ou a obrigação com a criança”, pontua o defensor.

História

No Brasil, o “Dia dos Pais” foi celebrado pela primeira vez, em 16 de agosto de 1953. Durante muito tempo, a data foi utilizada no catolicismo para celebrar o dia de São Joaquim – segundo a Bíblia, pai de Maria, portanto, avô de Jesus Cristo. Atualmente, São Joaquim é lembrado, ao lado de sua mulher, Santa Ana, em 26 de julho – Dia dos Avós.

Porém, a data nasceu de uma campanha publicitária do então diretor da Rádio e do jornal O Globo, Sylvio Bhering, com objetivos tanto social quanto comercial. 

Todos os pais terão todo o motivo do mundo para comemorar o dia dedicado a eles. Dia dos pais, data importante para os homens dispostos a fazer o possível e o impossível para serem pais e verdadeiros exemplos.