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27 de novembro de 2021
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Victória Sales – Da Cenarium

MANAUS – Apesar da violência doméstica ser frequentemente relacionada a casais heterossexuais, as agressões físicas e psicológicas, ameaças e pressão são ainda mais comuns entre casais LGBTQIA+. Essa foi a história vivida pela arquiteta Isabella Albuquerque, de 24 anos, que contou à CENARIUM a experiência vivida com a ex-companheira. “Ela só me batia e deixava marcas em lugares onde ninguém podia ver, que era para ninguém saber o que ela fazia”, explicou.

De acordo com Isabella, o antigo relacionamento durou cerca de três anos e logo no primeiro ano a ex-namorada já demonstrava sinais de ciúme. “Eu não imaginava que isso se tornaria algo violento. Moramos juntas durante um ano e, na convivência, ela se mostrou mais explosiva. Tinha picos de raiva, descontava frustrações dela em mim e quase sempre isso virava agressão física”, afirmou Albuquerque.

“Começou com pequenos beliscões e puxões nos braços. Ela só me batia em lugares onde ninguém via as marcas, também me chutava e eu só me defendia, nunca consegui ter coragem de revidar. Quando foi ficando mais grave, pensei em fazer um boletim de ocorrência, mas fui desencorajada pela minha família, que sabia das agressões, mas não ajudava”, explicou Isabella.

Ainda segundo a arquiteta, tudo acabou após uma agressão mútua. “Um dia, não consegui mais ficar só apanhando e revidei. Infelizmente esse foi o final e desde então não tenho qualquer tipo de contato com a ex. O tipo de situação que eu vivi, não desejo para mais ninguém”, ressaltou.

Cena do seriado lésbico “The L World”, que aborda as problemáticas dos relacionamentos LGBTQIA+(Reprodução/Internet)

Maria da Penha

A delegada titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), Débora Mafra, explicou que a Lei Maria da Penha se encaixa para mulheres trans e casais homoafetivos femininos. “A lei ampara sim, seja mulher por nascimento ou mulheres trans, que são desse mesmo grupo e precisam ter um amparo, pois tanto faz o relacionamento seja hetero ou seja homossexual tem as mesmas divergências, tem as mesmas violências e precisam ser combatidas”, destacou.

Débora ressalta que atualmente esses casais têm procurado mais a delegacia para denunciar esse tipo de crime. “O tratamento é igual para todas, mas muitas vezes elas têm vergonha de denunciar e ainda têm o quesito da discriminação que dificulta ainda mais o processo da denúncia, pois na maioria das vezes elas não encontram saída para acabar com esse tipo de crime”, salientou.

“Elas podem solicitar medidas protetivas, serem amparadas nos três âmbitos, tanto no âmbito familiar quanto no doméstico e no do relacionamento. Isso é uma renovação, é um avanço, pois são seres humanos que precisam sim ter o amparo da lei sem distinção e a Delegacia da Mulher é aberta para todo tipo de amparo que elas possam solicitar”, destacou a delegada.

Falta de dados

Mesmo parecendo “casos isolados”, as agressões entre casais LGBTQIA+ são mais comuns do que se imagina. Com notificação oficial menos frequente e sem legislação específica, os crimes de agressão entre casais homossexuais têm pouca atenção.

De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Centro de Prevenção e Controle de Enfermidades dos Estados Unidos, mais de 16 mil pessoas LGBTQIA+ afirmaram já terem sido vítimas de violência íntima, sendo ela física, sexual ou psicológica por parte da pessoa em que se relaciona ou já se relacionou.

Em um dos poucos estudos divulgados, a conclusão da pesquisa divulgada em 2014 pela Escola Feinberg de Medicina da Northwester University, de Chicago, ressalta que a falta desses dados “pintam um quadro incompleto do panorama real, sugerindo taxas ainda mais altas”. A pesquisa destaca que entre 25% a 75% do grupo LGBTQIA+ já foram vítimas de violência doméstica.