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19 de junho de 2021
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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – O Aterro de Resíduos Sólidos de Manaus, localizado no Km 19 da AM-010, rodovia que liga Manaus a Itacoatiara, é o destino do lixo produzido na capital amazonense. O “lixão” tem licença ambiental até 2024. Porém, relatórios de órgãos de controle identificam que os impactos ambientais causados pelo lixo a céu aberto não são recentes e devem perdurar até depois do encerramento do local. No entorno, moradores reclamam também do forte cheiro, além da contaminação da água.

O local tem área estimada em 66 hectares e possui licença ambiental de operação fornecida pelo Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam). Desde 2013 já foram coletadas 7.243.278 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos na cidade sendo, apenas de janeiro a outubro de 2020, cerca de 731.070 mil toneladas. A média diária é de 2.395 mil toneladas. Do total de 2020, 67% foi coleta domiciliar, referente a 497.237 mil toneladas.

Animais e lixo convivem diariamente no Aterro de Resíduos Sólidos de Manaus (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Contaminação

Outros pontos constatados ainda no aterro foram a ausência de monitoramento na medição da concentração e vazão dos gases gerados no aterro; sistema inadequado de armazenamento dos resíduos orgânicos na área de compostagem; e sistema inadequado de tratamento e disposição final dos Resíduos Sólidos de Serviço de Saúde (RSSS).

Em 2019, o lixão foi alvo de auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM). Entre os pontos analisados estava a possível contaminação de três igarapés localizados nas redondezas do aterro sanitário. Do relatório gerado foi concluído que as águas dos igarapés Matrinxã e Acará, assim como o canal principal do Aracu e as águas subterrâneas nos poços mais próximos ao aterro foram comprometidas por condições inadequadas na operacionalização.

Moradores em risco

Na localidade no enterro do aterro, principalmente na comunidade Lago Azul, os moradores têm que viver driblando os impactos ambientais do lixão. É assim que vive a família do autônomo Miguel Pereira, que mora há 25 anos a poucos quilômetros de distância do lixão. Ele contou à CENARIUM que a principal preocupação dos moradores da comunidade, além do forte odor, é a contaminação dos poços artesianos de onde se consome a água.

“A gente mora aqui há mais de 20 anos e a gente sofre com o fedor da lixeira, não é todo dia, mas tem dia que é horrível. Quando chove que bate o vento, bate o fedor da lixeira, a gente fecha a casa toda para não ficar sentindo o fedor. A água é poço artesiano, a gente usa mais aqui do posto [de gasolina] do lado, porque nosso poço é menos fundo e aí a gente usa mais para beber do posto. A gente tem medo de contaminação. Quase todos os moradores daqui pegam para tomar de graça. Acredito que seja por causa dessa contaminação”, contou Miguel.

O autônomo Miguel Pereira mora há 25 anos na comunidade Lago Azul e sente de perto os impactos ambientais do aterro (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

A preocupação de Miguel é compartilhada pela dona de casa Maria de Fátima Souza Silva. Ela, que mora na comunidade desde 2010, também comenta sobre o cheiro incômodo e a contaminação. “O cheiro, a mosca, dá muita mosca na época quando está muito forte [o cheiro]. Quando é cinco horas da tarde começa aquele odor muito forte. A gente fecha tudo”, disse ela.

Sobre a água, Maria de Fátima ainda lembrou que há alguns anos vários poços artesianos foram fechados justamente por causa da contaminação. “Quem tem condições aqui compra água no supermercado. Tudo para evitar pegar doença, contaminação. Lá na rua 1 teve muito poço que foi fechado, porque era pequeno, 50, 40 metros de profundidade. Não tenho certeza, mas acredito que foi fechado por causa do lixão. As pessoas fecharam por causa do odor que estava muito forte e não tinha condição de fazer mais profundo. Isso foi em 2012, 2014”, lembra ela.

Maria de Fátima Souza Silva mora na comunidade Lago Azul desde 2010 (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Falta de esclarecimentos

A reportagem tentou contato com a Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), assim como o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) e o Ministério Público de Contas do Estado do Amazonas (MPC-AM), mas não obteve retornou até a publicação desta matéria.

Veja o relatório do TCE-AM:
relatorio_RSU-1-1