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25 de junho de 2021
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Matheus Pereira – Da Revista Cenarium

MANAUS – A solicitação da presença de torcedores na final do Campeonato Amazonense de Futebol discutida, nos últimos dias, entre os clubes amazonenses finalistas da competição e a Federação Amazonense de Futebol (FAF) recebeu uma primeira resposta positiva, de acordo com as diretorias do Manaus FC e do São Raimundo. O epidemiologista da Fiocruz/Amazônia, Jesem Orellana, alerta que, mesmo que seja liberada a entrada de 10% da capacidade da Arena da Amazônia, como querem as entidades, ainda assim existem riscos de contaminação pelo novo coronavírus.

“Na prática, é pouco provável que se consiga controlar o distanciamento interpessoal dentro desses locais que, inevitavelmente, geram aglomeração. Ainda que isso fosse alcançado em um cenário imaginário, o que acontece da porta do local do evento para fora é absolutamente imprevisível, como por exemplo, dentro do transporte coletivo ou bares e restaurantes que são frequentados após a saída desses locais”, pontuou.

Torcedores

A ideia da federação e dos clubes é que o segundo jogo da final do campeonato estadual, marcado para o dia 22 de maio, tenha aproximadamente 4.400 torcedores. A solicitação vem sendo discutida junto ao Comitê de Enfrentamento à Covid-19 do Governo do Amazonas. De acordo com o próprio governo, as medidas de flexibilização ou restrição são baseadas nos dados epidemiológicos do Estado, monitorados diariamente pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

Orellana explica que o cenário ideal para que eventos desse porte voltem a receber público é com a cidade mantendo um controle sustentado de baixos níveis de incidência da Covid-19 (em geral, menos de cinco casos para 100 mil habitantes durante quatro a seis semanas seguidas), além de garantia de vacinação em massa da população geral, superior a 50%. Entretanto, os riscos de contaminação ainda sim existiriam.

“Ainda assim, surtos seriam esperados nesses eventos, mesmo que limitados e sem grande poder de sustentar forte transmissão comunitária. Por isso, e considerando este cenário teórico, seria fundamental monitorar uma amostra do público participante, evitando eventual espalhamento viral na cidade”, alertou.

Casos

O Amazonas teve 579 novos casos e duas mortes pela doença confirmados na última sexta-feira, 14. Desses mais de 500 casos, 346 foram registrados na capital. No dia 10 de maio, a Fiocruz, por meio do próprio Jesem Orellana anunciou um novo alerta para o crescimento de casos de Covid-19 em Manaus e que houve crescimento na média móvel de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), indicador indireto da crise.

A Fiocruz também alertou que a pandemia está se espalhando pelas camadas jovens da população. A constatação faz parte do Boletim do Observatório Covid-19, editado pela fundação e divulgado no dia 7 de maio.

Eventos com vacinados

De acordo com o Vacinômetro da Prefeitura de Manaus, até a manhã deste sábado, 15, pouco mais de 220 mil pessoas foram vacinadas com as duas doses na capital amazonense. Jesem Orellana explica que ainda que eventos desse tipo contem com pessoas imunizadas, a cobertura vacinal na capital amazonense não permite que os presentes estejam 100% seguros.

“Ainda que a cobertura vacinal na população geral estivesse alta em Manaus, o que está longe de ser o caso, eventos que geram aglomerações, implicam em riscos inerentes às próprias limitações das vacinas, bem como de novos contágios em pessoas não vacinadas”.

Em Manaus, 224.243 foram vacinadas com as duas doses da vacina (Alex Pazuello/Semcom)

Como as vacinas disponíveis não imunizam 100%, há ainda o risco de disseminação do vírus, mesmo que os presentes nesse tipo de evento estejam imunizados com as duas doses.

“As vacinas, em geral, protegem com alto nível de eficácia, contra formas graves de Covid-19 e óbito. Portanto, não livram os vacinados, mesmo aqueles que ultrapassaram os 21 dias após a segunda dose, de entrarem em contato com o vírus e se infectarem, podendo ficar assintomáticos ou com a forma leve da doença. Significa que algumas pessoas vacinadas podem ir a esses eventos para disseminar o novo coronavírus, mesmo sem saber”, explicou o epidemiologista.

Evento de tênis

Em fevereiro deste ano, o Australian Open, um dos principais circuitos de tênis do mundo, foi realizado com uma estratégia de segurança para tentar não complicar ainda mais os riscos à saúde pública e os torcedores. Mesmo que tenha sido disputado em Melbourne, uma das principais cidades da Austrália, país que conseguiu minimizar a curva de contágios e mortes, o evento esportivo não conseguiu ser realizado sem ter a presença do novo coronavírus.

Evento com torcedores precisou encarar diversos desafios para ser realizado (Loren Elliott/Reuters)

No país, por conta do torneio, as medidas de quarentena ficaram mais rigorosas para 25% dos atletas, que ainda precisaram ser isolados e testados, inesperadamente, pouco antes do início do torneio. E devido a infecções não relacionas ao torneio, um lockdown em todo o estado proibiu a presença de torcedores no Melbourne Park por cinco dias.

No final das contas, apenas a tenista espanhola Paula Badosa testou positivo e precisou ser transferida para um hotel médico sem nenhum equipamento de exercício. Além disso, a cinco dias da abertura do Australia Open, um segurança do principal hotel em que os jogadores estavam hospedados também testou positivo e as autoridades da saúde pública decretaram a retestagem e isolamento dentro do quarto de mais 500 pessoas, incluindo muitos jogadores.