23 de janeiro de 2021

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Os povos da Amazônia continuam sofrendo com os impactos devastadores causados pela contaminação do mercúrio usado pelo garimpo ilegal nas florestas brasileiras. Um estudo realizado pela Fundação Oswald Cruz (Fiocruz), em parceria com a Organização Não-Governamental (ONG) WWF-Brasil, apontou que a infecção chega a todos os indígenas da etnia Munduruku participantes da pesquisa, sendo que nove em cada dez pessoas que vivem às margens dos rios apresentaram alto nível de contaminação.

De acordo com a pesquisa, no médio rio Tapajós, nos municípios de Itaituba e Trairão, no Estado do Pará, níveis de mercúrio acima de limites seguros foram detectados em seis a cada dez participantes (57,9%). O limite máximo considerado seguro pela Organização Mundial de Saúde (OMS), no uso da substância, é de 6µg.g-1.

Em crianças, o levantamento revelou que nove (15,8%), em um total de 57 crianças menores de cinco anos avaliadas, apresentaram problemas nos testes de neurodesenvolvimento.

Conforme Paulo Basta explicou ao WWF-Brasil, coordenador do estudo e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, o projeto foi realizado para atender a um pedido da Associação Indígena Pariri, que representa o povo indígena Munduruku, por conta da elevada devastação do ambiente natural e da contaminação provocada pelo mercúrio no rio Tapajós e seus afluentes.

“Os resultados nos mostram que a atividade garimpeira vem promovendo alterações de grande escala no uso do solo nos territórios tradicionais da Amazônia, com impactos socioambientais diretos e indiretos para as populações locais, incluindo prejuízos à segurança alimentar, à economia local, à saúde das pessoas e aos serviços ecossistêmicos”, explicou.

Riscos

A contaminação por mercúrio chama a atenção para certos problemas de saúde, identificados por especialistas. Segundo um estudo da neurocientista Claudia Feitosa-Santana, mesmo morando em áreas não afetadas por hidrelétricas, extração de ouro, desmatamento ou sem nenhum contato direto com potenciais fontes de contaminação por mercúrio, ribeirinhos apresentam prejuízos na visão.

Os efeitos tóxicos pela substância incluem, também, danos ao cérebro, rins e pulmões, o que pode resultar em doenças como a síndrome de Minamata (nome derivado de uma cidade japonesa que sofreu com uma contaminação em massa pelo metal, provocando a morte de milhares pessoas).

Alimento influencia

O consumo de peixes contaminados por mercúrio pode, ainda, ser irreversível. O estudo da Fiocruz e da WWF-Brasil também apontou que a principal fonte de proteína das comunidades, o pescado, está atingido. Segundo nota técnica da pesquisa, foram capturados 88 exemplares de peixes, pertencentes a 18 espécies distintas, que correspondem aos níveis tróficos piscívoro, onívoro, herbívoro e detritívoro.

O levantamento mostrou que todos os exemplares capturados estavam contaminados, indicando a magnitude do impacto da atividade garimpeira na região. Além disso, dados obtidos a partir das entrevistas mostram que 96% dos participantes ingerem peixes regularmente.

Recomendações

No estudo, as organizações consideram que os resultados do levantamento “convertem-se em evidências inequívocas dos efeitos deletérios da contaminação por mercúrio entre os habitantes das três aldeias Munduruku avaliadas” e apresentam recomendações uma série de recomendações ao poder público.

Entre as medidas solicitadas, o estudo requer a interrupção imediata das atividades garimpeiras e a completa desintrusão (medida legal tomada para concretizar a posse efetiva da terra indígena a um povo) das terras indígenas afetadas pela mineração ilegal; além de o desenvolvimento de um plano de descontinuidade do uso de mercúrio na mineração artesanal de ouro em todo o País, seguindo recomendações da Convenção de Minamata.

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