Funai retirou armas que protegiam isolados no Vale do Javari na gestão de militar que falou em ‘meter fogo’ nos indígenas

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Armas de fogo institucionais da Base de Proteção do Vale do Javari, no rio Curuçá, no Amazonas, foram retiradas pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em 2021, na gestão do tenente da reserva do Exército Henry Charlles Lima da Silva, conhecido pelo áudio em que ele fala em “meter fogo” nos indígenas isolados da região. O território indígena, marcado pelo tráfico internacional de drogas e pelo histórico de invasões e ataques a grupos de recente contato, é onde o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips estão desaparecidos, desde o dia 5.

Veja também: Em áudio, coordenador da Funai fala em ‘meter fogo’ em índios isolados no AM

De acordo com uma nota pública do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI), publicada em 23 de julho de 2021, em repúdio à fala do militar bolsonarista, o tenente da reserva recolheu pessoalmente o armamento na base de proteção em junho do ano passado. Segundo o documento, o ato deixou a equipe que atua na região desprotegida.

“Tais armamentos, além de imprescindíveis para a segurança da própria equipe, proporcionam alimentação para os colaboradores indígenas que ali atuam e que têm na caça a fonte principal de sua alimentação tradicional”, diz trecho da nota.

O tenente e o áudio

Henry Charlles Lima da Silva foi nomeado como coordenador regional da Funai no Vale do Javari em 9 de julho de 2020, mas foi exonerado do cargo em novembro de 2021, segundo o Diário Oficial da União (DOU). De acordo com a publicação, a destituição foi a pedido do militar.

Henry Charlles foi exonerado em 2021 (Reprodução)

Antes de ser exonerado, o tenente da reserva se envolveu na polêmica na qual ele aparece encorajando líderes do povo Marubo a “meter fogo” em indígenas isolados, caso sejam importunados. Em um áudio que viralizou nacionalmente, em julho de 2021, Henry da Silva declara que vai “entrar em contato com o pessoal da Frente [de Proteção Etnoambiental] e pressionar”.

“Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os Marubos, meter fogo nos isolados’”, declarou Henry. A declaração aconteceu durante reunião na aldeia Vida Nova, em 23 de junho, ou seja, um mês antes do áudio viralizar.

Em outro trecho do áudio, o militar fala: “Se eles [os isolados] cometerem algum delito, alguma ameaça a vocês, a gente tem de ver o que pode fazer pra poder parar”, afirmou o coordenador. “Eles já entendem. Já pedem cesta básica, já falam português, já têm contato direto com a frente, não se justificam certas atitudes deles”, continuou.

Repúdio

À REVISTA CENARIUM, membros do povo Marubo repudiaram, à época, o áudio de coordenador da Funai que incita violência entre indígenas no Amazonas. O líder indígena Eliésio Vargas Marubo destacou, em 2021, que não há conflitos entre seu povo e os isolados.

Para o Marubo, a declaração do coordenador da Funai no Vale do Javari faz parte da política do presidente Bolsonaro, que nega os direitos indígenas. “A declaração do coordenador da Funai é horrível, é algo que vai totalmente contra a política do órgão nas últimas décadas. É justamente a política do não contato, vai contra a política do estado brasileiro de preservação da vida e proteção dos direitos”, afirmou o líder indígena, em 2021.

Fiscalização no Vale do Javari

A falta de fiscalização efetiva contra invasores em terras indígenas do Amazonas vem sendo denunciada pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). No último dia 5 de junho, a região foi palco do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, que sumiram após receberem ameaças em campo.

Para o assessor jurídico da entidade, “não há interesse em fiscalizar” o Vale do Javari. “Ninguém faz uma fiscalização efetiva. E não é algo pontual, mas que vem de longa data. E quanto mais longe são as terras indígenas, maiores são os problemas, e a população não conhece, porque você não tem como chegar nesses lugares com a logística cara”, lamentou Yura Marubo, na semana passada.

Veja também: ‘Ninguém faz fiscalização efetiva’, lamenta Univaja sobre região onde indigenista e jornalista desapareceram na Amazônia

O relato foi dado à imprensa, em Manaus, quando o assessor jurídico concedia esclarecimentos sobre o desaparecimento de Bruno e Dom. Na entrevista coletiva, Marubo destacou que, a região onde o ativista e o jornalista desapareceram é extremamente isolada e tem problemas severos que envolvem narcotraficantes, madeireiros, empresários, pescadores e mineradoras. Segundo Yura, esses invasores entram na Terra Indígena do Vale do Javari com a inércia das autoridades policiais e fiscalizadoras.

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