27 de fevereiro de 2021

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Um projeto de leitura e escrita acalenta o sonho e a esperança das famílias indígenas do Alto Rio Negro, no interior do Amazonas. Para manter os saberes tradicionais, os povos Baniwa e Koripako criaram cartilhas para o ensino de crianças de 7 a 11 anos, que não possuem material didático inclusivo sobre as tradições das etnias.

Em entrevista à REVISTA CENARIUM, o coordenador do projeto e professor indígena, Bonifácio José, detalhou que o programa auxiliou os jovens mesmo com o avanço da Covid-19 no Amazonas e que ainda foi possível disseminar o conhecimento repassado pelas lideranças responsáveis.

“Estávamos enfrentando dificuldades com a ida das crianças da comunidade para a escola a partir do 6º ao 9º ano. Com isso, os professores começaram a ver dificuldade de aprendizado dos alunos, além da falta de material didático apropriado para a nossa realidade”, contou Bonifácio José, o líder Baniwa.

À esquerda, Bonifácio José ao lado do líder indígena Alberto Awadzoro, importante conhecedor da história do povo Baniwa, durante oficina na comunidade Santa Rosa do Rio Içana, em 2020. (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Conhecimento

As comunidades do rio Içana, em São Gabriel da Cachoeira (distante a 852 quilômetros de Manaus), participaram em 2020 de oficinas do projeto Wadzeenetaka Ianeeketti Walimanai Irhio (Repassando Conhecimentos aos Jovens). Juntos, eles elaboraram cartilhas sobre a cultura dos povos irmãos, que representam 86 comunidades da região.

As atividades foram desenvolvidas por meio da Associação Conselho da Escola Pamaali (Acep), que, junto com o povo Baniwa/Koripako, mobilizou comunidades, lideranças, alunos, instituições e organizações indígenas. O objetivo é que o material sirva para as escolas de São Gabriel da Cachoeira, cuja população é 90% indígena.

O programa auxiliou os jovens mesmo com o avanço da Covid-19 no Amazonas. (Arquivo Pessoal/Reprodução)

As duas oficinas de capacitação de professores e estudantes ocorreram em 2020, nos dias de 19 a 20 de setembro. Além dos dias 20 a 22 de novembro na comunidade de Tucumã Rupitá, no rio Içana, Terra Indígena Alto Rio Negro, na fronteira Brasil, Colômbia e Venezuela.

87 pessoas participaram das oficinas, além dos mestres sábios, importantes conhecedores e transmissores de histórias. Contos, ensinos e orientações para as novas gerações foram transmitidos. Além dos registros e a sistematização das cartilhas na língua Baniwa.

Capa da cartilha desenvolvida para estudantes indígenas de 7 a 11 anos de idade (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Segundo Boni Baniwa, a elaboração do projeto é a concretização de um sonho das lideranças indígenas, que ao longo dos anos elaboraram projetos para eternizar os costumes. Para Bonifácio José, a iniciativa demonstra a importância e o interesse das comunidades Baniwa/Koripakos sobre o tema da educação e ensino às crianças e aos adolescentes.

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“A recepção do projeto por parte dos jovens foi bastante boa. Nunca foi trabalhado [o ensino indígena] dessa forma com a participação deles, porque o mestre, por exemplo, sabe o que estava falando para a gente: ensino, as técnicas, a forma de repassar o ensino para as crianças, a forma da linguagem que tem que ser usado”, finalizou.

As cartilhas serão entregues aos professores especialistas em língua Baniwa/Koripakos, para que finalizem o processo de revisão. Em seguida, de acordo com Bonifácio, será feito o envio à Secretaria Estadual de Educação (Seduc) com a solicitação de produção em maior escala do material elaborado aos estudantes indígenas.