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17 de novembro de 2021
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Nícolas Marreco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Uma pesquisa recente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) atestou que os casos de estresses mentais, depressão e ansiedade, principalmente, aumentaram desde o início do isolamento. Numa entrevista que abrangeu oito estados de todas as regiões do País, foi mostrado que as mulheres são mais propensas a sofrer psiquicamente que homens.

Quem sai de casa obrigado pelo trabalho também tende mais a sofrer. No Amazonas, o índice das mulheres também foi confirmado por profissionais que estão atendendo à distância. A Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (Fapsi/Ufam), por exemplo, ampliou os atendimentos da clínica-escola e viu que mulheres de 20 aos 25 anos e a partir dos 50 têm buscado com frequência o serviço.

O psicólogo Alan da Costa detalhou que as principais demandas são relacionadas à ansiedade. “Alguns chegam com sintomas similares da Covid-19; aperto no peito e falta de ar. Atendi gente que até somatizou febre”, contou. Atritos familiares e mães com mais idade também foram perfis de atendimento traçados que se aproximam dos profissionais em tempo de isolamento.

A pesquisa da Uerj, em parceria com o hospital universitário Yale New Haven (EUA), entrevistou mais de 1,4 mil pessoas em 23 cidades com um questionário de aproximadamente 200 perguntas. Organizada em dois momentos, quando o decreto de isolamento iniciou no Rio de Janeiro e um mês depois, foi visto que as ocorrências de ansiedade e estresse aumentaram em 80% depois do primeiro mês de isolamento. Os casos de depressão quase dobraram. 

Crises repentinas

“Faz umas duas semanas que comecei a sentir, por algum motivo, falta de ar, um nó na garganta, respiração acelerada, suava frio, parecia que ia desmaiar. E muito choro que não conseguia controlar. Acredito que o ar-condicionado me deu falta de ar por causa da rinite alérgica, e por tudo isso sofri uma crise de ansiedade muito forte”, relatou a estudante Joanne Paula, de 23 anos.

Solteira, ela é mãe do Benjamim, de nove meses, e explicou que no dia em que teve a crise sofreu de cinco a seis episódios parecidos com o descrito acima. O primeiro iniciou em torno das 22h, findando próximo das 1h30, após ela ter tomado calmantes para dormir.

Ela explicou que já sofreu com sintomas parecidos antes, “mas nunca tive todos juntos, dessa forma, muito intensos”. Um dos motivos é também de preocupação com o filho contaminar-se com Covid-19. O pai de Benjamim, que atualmente mora em Pinhais (PR), veio visitar há poucos dias, ela contou. O receio era da infecção vir junto.

“Tinha completado um mês dentro de casa, estava no começo da evolução dos casos. Fiquei muito apreensiva porque ele (o pai) tinha contato com outras pessoas também, além do Benjamim. Tenho gordura no fígado e pedra na vesícula, e uma semana antes fui ao hospital com crise. E desde lá ficou martelando na minha cabeça ter que entrar no hospital nessa situação”, contou.

A diarista Nilda Santana, de 37 anos, disse que sempre dormiu o essencial. No isolamento, entretanto, tem dormido geralmente às 5h da manhã. Acostumada a uma rotina ativa, o afastamento dela e do esposo do mercado de trabalho é o que inquieta mais. “É mais por causa da renda. Chegam as contas e a gente não tem onde tirar”, lamentou.

Ela completou que é a primeira vez na vida adulta que fica em casa sem atividades formais, sem sair por muito tempo. “Eu nunca parei, geralmente acordava 5h da manhã e voltava para casa 19h”, concluiu. Além dos fazeres domésticos, ela começou a fazer exercícios físicos no condomínio onde mora e relatou melhoras no sono.

Joanne também contou buscou a fé para driblar os sintomas de ansiedade. “Busquei um tempo de devocional para alimentar a alma. Também parei de ver jornal, com notícias negativas. Passei a fazer mais certinho exercícios e todo dia tomo chá de camomila, erva doce etc. Comecei um projeto de tiaras artesanais e vi que me concentrar nisso me ajuda muito”, pontuou.

Autoconhecimento e equilíbrio

A psicóloga educacional, Adriana Andrade, recomendou que a busca por equilíbrio pessoal, interno, ajuda cada um a lidar de forma diferenciada e melhor com os conflitos desse período. A partir de mais autocontrole, a inteligência emocional aflora, o que traz mais gerência das emoções.

“Se eu estou bem internamente, vou saber conduzir os problemas que estão aparecendo. O isolamento foi muito inesperado; as pessoas estavam num ritmo de trabalho, as crianças em atividade, e foram bruscamente interrompidas. Adolescentes apareceram com sintomas de depressão, e outro agravante são as casas que não lares”, observou.

Problemas de trato familiar também é uma das ocorrências que mais aparecem como causa de atendimento. Na desarmonia das pessoas que dividem o teto, tolerância e respeito são palavras-chaves nesse contexto. “Não sou obrigada a gostar do outro, mas preciso respeita-lo como ele é. Se há respeito, há crescimento, amizade”, enfatizou.

Devido ao isolamento propiciar um medo coletivo, sintomas da ansiedade, principalmente falta de ar e aperto no peito, são mais comuns nesse período. Grupos como os professores da área da saúde da Ufam e egressos montaram agenda de atendimento gratuito. Para saber mais, as redes sociais da Fapsi estão disponíveis.