Na Amazônia, famílias de classe média vão trocar peru por frango no Natal

Estoque de peru em supermercado de Manaus. (Ricardo Oliveira/ Cenarium)

Victória Sales – Da Revista Cenarium

MANAUS – Com a proximidade do Natal, as famílias procuram ainda mais os supermercados para comprar os produtos que compõe a ceia natalina. Mas um levantamento feito pela equipe de reportagem da CENARIUM, nesta quinta-feira, 9, mostrou que, com o aumento no preço do principal produto presente na mesa dos brasileiros no final de ano, o peru, algumas famílias de classe média terão que trocar o peru pelo frango, impulsionados, principalmente, pela alta da inflação.

Nos supermercados visitados, o preço do peru chegou a R$ 150 como no caso do Pátio Gourmet, que é considerado um supermercado de classe média alta e está localizado na Avenida Djalma Batista, zona Centro-Sul de Manaus. Mas valor elevado para um dos principais itens da ceia natalina não foi encontrado apenas em supermercados considerados de alto padrão. No supermercado popular Açaí Atacadista, localizado na Avenida Efigênio Salles, o peru mais em conta foi encontrado por R$ 124,43. Já no Nova Era, zona Oeste de Manaus, o item custava R$ 98.

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No supermercado Açaí Atacadista, algumas unidades de peru chegaram a custar mais de R$ 120. (Luís Henrique Oliveira/ CENARIUM)

Para se livrar dos altos valores e manter a ceia, algumas famílias acabam optando por outras aves como o frango. No primeiro supermercado, a ave mais popular e disponível durante todo o ano estava custando R$ 22 o kg, enquanto no segundo, R$ 11.

Estoque de Peru em supermercado de Manaus. (Ricardo Oliveira/ Cenarium)

Vivendo de aluguel na maior capital da Amazônia, o cinegrafista Paulo Batista*, o Natal da família não vai ter o peru, pois o valor é inacessível para o seu bolso. “Esse ano a gente não vai ter o peru, o preço aumentou muito para continuar com ele na nossa ceia. Infelizmente vamos precisar trocar por um frango que o preço está menor. Pelo menos a gente não vai ficar sem ceia, mas com o valor que está, fica inviável comprar um peru apenas para comer em uma noite. Com esse valor, eu consigo comprar duas cestas básicas aqui em Manaus para a minha família”, declarou.

Outra família que também não vai ter a oportunidade de adquirir o produto, é a da auxiliar de serviços gerais Maria da Silva*. Segundo ela, a família não vai ter a oportunidade de comprar o peru para as festas de fim de ano. “É impossível comprar um alimento com esse valor apenas para um dia, e com o valor que eu recebo. Meu salário não me permite fazer extravagâncias. Então, esse ano eu vou comprar um frango e fazer para complementar o jantar de Natal”, relatou.

Mas os altos preços não param por aí. Levando em consideração que uma ceia é composta por peru, arroz, farofa, frutas, nozes e sobremesas, é possível que uma família gaste, em média, R$ 200. “Eu ganho o Bolsa Família, que agora mudou de nome. Não tenho muita renda e por isto, vamos trocar todos esses itens de uma ceia tradicional por um jantar mais simples. Prefiro comprar uma cesta e me alimentar nos outros dias do que gastar tudo de uma vez”, completou Maria.

Um outro item comum nessa época do ano é o panetone. Com preço médio encontrado a R$ 30, uma unidade chamou atenção da reportagem ao ser vendida a R$ 260,90 no Pátio Gourmet. Na descrição do produto, o fabricante justifica ser um panetone importado da Itália, produzido artesanalmente, recheado com um creme de textura aveludada com chocolate e avelãs. “Tá louco que eu compraria um desses?”, brincou a auxiliar de serviços gerais.

Panetone foi encontrado a R$ 260,90. (Victória Sales/ CENARIUM)

Pesquisa

Segundo a Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj) mais de 50% das pessoas irão reduzir gastos no fim de ano em comparação ao mesmo período do ano passado. Ainda de acordo com a pesquisa, o peru e o espumante, que são produtos tradicionais na ceia de Natal, devem ficar de fora de uma boa parte das festividade deste ano.

O chester e o frango foram produtos que mais apareceram na pesquisa, como produtos principais na lista de consumo este ano. Em compensação, o bacalhau, que vem se fazendo presente nos anos anteriores, não estará tão presente nas celebrações em 2021. Somente 16% dos entrevistados informaram que irão comprar o peru para as festas de fim de ano.

De acordo com a economista Denise Kassama, o importante é não perder a essência da festividade. Ela faz um alerta para que o consumidor não entre o ano seguinte endividado. “Não podemos perder a essência do Natal que é estarmos com aqueles que amamos. O resto, a gente monta conforme nossa possibilidade. O importante é não se endividar nesse momento tão difícil para a economia”, explicou.

Possível causa

Uma possível explicação para a alta nos preços dos alimentos ficou por conta da inflação que, em novembro esteve em 0,95%, depois de atingir 1,25% em outubro, mas ainda assim é a maior para o mês desde 2015, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 10. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de 9,26% no ano e de 10,74% em 12 meses, o nível mais alto desde novembro de 2003, quando foi de 11,02%.

Segundo o site Poder360, o efeito da elevação dos preços é mais severo sobre os mais pobres. De acordo com o IBGE, os gastos com alimentação representam 20,94% da renda dos brasileiros. Se analisado entre as famílias que vivem com 1 a 5 salários mínimos, o peso da alimentação chega a 23,84% dos rendimentos. Os gastos com habitação, por sua vez, consomem 15,94% das rendas da população em geral. Entre as famílias que recebem de 1 a 5 salários mínimos, eles representam 17,8% de suas despesas.

(*) Nome fictício

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