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20 de outubro de 2021
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João Paulo Guimarães – Da Revista Cenarium

BELÉM, PA – Ao longe vemos uma balsa carregando um volume alto se aproximando. Eu olho por cima dos ombros contra o Sol e vejo que é madeira que vem subindo o Rio Tapajós. Ao lado de nossa bajara (canoa de madeira com motor) aparece uma lancha com outro grupo de indígenas avisando que vamos subir.

“Eu sou índio guerreiro,
eu vim da Mãe Terra,
para Mão Terra eu irei,
eu sou índio guerreiro”.

Canção indígena de guerra – autor desconhecido.

Ao nos aproximarmos da balsa sinto medo. O carregamento é gigantesco. É impossível contar quantas árvores foram derrubadas. Os troncos passam próximo de nossas cabeças e nossa bajara começa a balançar perigosamente nas águas do Tapajós. O monstro está desgovernado. Desgoverno. Água entrando na bajara e banhando a câmera. Vamos subir.

Carregamento ilegal foi acompanhado por ativistas (João Paulo Guimarães/ Revista Cenarium)

Cláudia Tupinambá é Mestra em Engenharia de Pesca e está conosco na abordagem. Ela tenta amarrar a corda na balsa e quase cai. Paro de fotografar e tento segurar na beira da balsa para que ela consiga amarrar a corda, mas corto minha mão. Alguém aparece e prende a bajara na balsa finalmente. Estamos descalços na balsa e nossos pés estão queimando no chão de aço.

Mulheres indígenas erguem faixa em protesto contra desmatamento (João Paulo Guimarães/ Revista Cenarium)

A extração ilegal é uma realidade que não chama mais a atenção do público brasileiro entorpecido pelos crimes cometidos neste ano pelo desgoverno federal genocida. As queimadas não chocam e a morte de mais de 160 mil brasileiros por Covid-19 já não causa nem medo e nem empatia.

As empresas madeireiras que têm o aval do governo chegam às comunidades nativas e ribeirinhas com uma grande oportunidade. Manejo madeireiro. Pedem o apoio e a permissão para o corte legal em reservas extrativistas. As Resex. Com seu discurso de progresso e ganho financeiro, mentem e encobrem a realidade dessa pratica.

Jéssica Anastácia Medeiros é Engenheira Florestal e Mestra em Ciências da Floresta e ela explica a ameaça. “Ecologicamente a retirada de madeira de florestas nativas tem um peso enorme para o ecossistema, pois uma árvore não é unicamente metros cúbicos de madeira, é também a morada de outras plantas, animais e seres encantados”.

Árvores centenárias como a Samaumeira servem de abrigo para outras espécies de plantas e animais (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Nas questões sociais, o manejo de floresta nativa traz diversos problemas, entre eles a desunião entre os comunitários, doenças, e o pior, transforma agricultores, extrativistas livres em meros funcionários, e consumidores
para o sistema econômico vigente.

Quando um grande empreeendimento se instala, muitas vezes com o discurso de conservação, ele está na verdade abrindo portas para o etnocídio das populações que habitam seu entorno.

Nós, povos da Amazônia, não queremos madeireiras, mineradoras, sojeiras ou turismo desenfreado em nossas terras. Queremos o direito de viver do nosso modo, livres como sempre fomos, produzindo como nossos ancestrais há mais de 10 mil anos produzem, sem destruir a floresta, afinal somos parte dela”.

Processo ilegal

O manejo no Estado do Pará tem o que chamamos de cadeia de custódia. Para as empresas madeireiras circularem com toras de madeira legais é preciso certificar a tora, ou seja, dizer de onde essa tora veio. Em qualquer lugar que essa madeira circular no Brasil ou para onde ela será exportada ela estará certificada através de uma placa metálica ou de plástico, com código, letras ou números na tora. Outra placa idêntica com os mesmos dados desse tronco ou tora deverá estar no toco dentro da floresta no local onde a árvore foi cortada. Dessa forma é feita a fiscalização por amostragem. Os dados dizem a espécie, local e o volume. Dessa forma é possível saber a origem da madeira que circula dentro e fora do País. Esse seria o processo legal da indústria.

Mas a realidade é outra. A indústria madeireira encontra meios simples de burlar o sistema visando o lucro imediato. Uma placa aleatória pode ser afixada na tora ou tronco Indicando corte de manejo legal. Simples assim. Chama-se “esquentar a madeira”. A indústria dá uma origem aparentemente legal para uma tora de madeira que tem sua origem de dentro de uma unidade de conservação.

O teste de oco

Antes da derrubada de árvores é feito um teste chamado “Teste de Oco”, que é feito com a motosserra E consiste em inserir o equipamento na superfície da árvore para observar a densidade. Caso seja muito fácil a entrada da serra no tronco então significa que a espécie não deve ser derrubada. Caso haja algum erro nesse teste, a árvore derrubada, chamada árvore ocada, permanece no local já que para as madeireiras, extrair árvores ocadas de uma área de manejo legal seria prejuízo, pois o valor pago é de acordo com o volume de madeira que se extrai da floresta. Nesse carregamento abordado pelos indígenas existia madeira ocada revelando a extração ilegal.

Faixas são expostas em areia de praia paraense para chamar atenção ao agronegócio no Estado (João Paulo Guimarães/ Revista Cenarium)

As abordagens às balsas estão no terceiro ano e os Tupinambás começam a ganhar força de adesão de outras comunidades assim como politica através do voto em indigenas para cargos como o de vereador. Mas no Estado do Pará, o agronegócio sempre foi forte politicamente.

O candidato concorrendo à eleição no segundo turno pela prefeitura de Belém é o mais recente exemplo do que o Bolsonarismo quer para a Amazônia. Em 2019 o superintendente do Ibama no Tocantins, Wallace Rafael Rocha Lopes, pediu à corregedoria da Polícia Federal que investigasse a conduta do delegado federal Everaldo Eguchi, que na época era cotado para assumir a superintendência do órgão ambiental no Pará.

Sávio Barbosa - Partido de Zenaldo confirma apoio à candidatura de Eguchi.
Delegado Federal Eguchi (Patriota) é candidato à Prefeitura de Belém (Reprodução/ Internet)

Em áudio vazado, Eguchi prometia não atrapalhar produtores rurais e acusava o Ibama de abusos e de extorsão contra produtores rurais. Esse ano as autonomias do Ibama e do ICMBio foram maculadas com o decreto conhecido como Lei da Mordaça, onde Ricardo Salles proibia as assessorias de comunicação de ambos os órgãos de comentar sobre a calamidade das Queimadas no Pantanal e na Amazônia. É o desmonte em prol do Agro. A boiada também passa pelo Tapajós, mas a porteira é guardada pelos Tupinambá, os Arapiuns, Borari e Kumaruaras.

As abordagens às balsas são para mostrar que ainda existe resistência. resistência dos mais jovens, das mulheres guerreiras dos povo ancestrais assim como dos mais velhos guiando a nova geração no caminho da preservação e da verdadeira auto sustentabilidade.

Raquel Kumaruara e Cláudia Tupinambá são algumas das vozes que ecoam contra o desmatamento na Amazônia e são símbolo de resistência (João Paulo Guimarães/ Revista Cenarium)