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27 de janeiro de 2022
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No término da vida, ele sorria. Um sorriso que parecia maior do que aquele leito hospitalar. Falava com alegria de cada etapa e de cada escolha na vida. Eu esperava encontrá-lo arrasado por conta de sua enfermidade. Fiquei até curioso para saber a origem de tanto sorriso antes da morte.

Éramos amigos desde a época do ensino fundamental. Quando jovens, passávamos horas conversando sobre as nossas alegrias e tristezas. Dançamos discoteca, vieram depois as músicas da banda U2, os bailes carnavalescos, os encantos pelas letras das músicas de Belchior e de Gonzaguinha.

Compunha músicas, tocava violão, guitarra e flauta. Cantou na noite. Participou de festivais de canção. Todas as vezes que se apaixonou dedicava uma música à amada. Participei de inúmeras serestas que ele organizava.

Nunca disse não ao amor pelas mulheres. Desafiou a vocação religiosa da família, os preconceitos sociais e as ideologias políticas por amor. Foi muito amado e amou muito. Num certo dia, ainda na adolescência, proibido pela família, pulou o muro da casa para ficar com quem amava.

Não gostava de acumular dinheiro, trabalhava para viver e não vivia para o trabalho. Criativo na arte da publicidade, entendia bem o significado de cada letra do alfabeto, de cada palavra, de cada frase e os efeitos delas nas vidas e nos corações das pessoas.

No país do futebol, ele não tinha time. Preferia observar a genialidade no campo de Maradona, de Zico, de Roberto Dinamite e de Pelé. Torcia pela arte, pelo inesperado e pelo talento.

Não suportava a visão dualista do mundo. Não ligava para as dicotomias, não tinha preferência por tipo específico de literatura, de ideologia política e de crença religiosa. Buscava decidir tudo na vida com a mente livre. Não se importava com a opinião pública.

Nunca quis escrever livro. Nunca quis ensinar nada. Não diferenciava o homem de outros animais. Dava igual importância aos seres vivos e aos não vivos do planeta, porque tudo se interligava. Acreditava que o universo é um caos, assim como a vida humana.

Não obedeceu a lógica da natureza. Não foi pai biológico. Não procriou. Teve muitos filhos afetivos, não segurou nenhum debaixo de suas “asas”. Não interferiu nas escolhas deles. “Cada vida uma vontade, um destino”, dizia ele.

Não concordava com o filósofo Plantão, ficava sisudo com os escritos de Kant, era reflexivo com as palavras de Sartre e sorria com os aforismos de Nietzsche, mas preferia viver sem nenhuma filosofia definida.

Pois bem. Naquela cama de hospital, cercado com tantos filhos afetivos, com amores da vida, com amigos e amigas de momentos belos e, também, tristes, o meu amigo Thomé, o querido Russo, se despedia da vida sorridente.

Sem rancor, sem frustração, sem vazios na vida, sem nenhum sentimento ou vontade de viver algo não vivido. Ele me abraçou com o que lhe restava de energia e me disse com um fio de voz: “Obrigado, amigo. Vou partir porque o meu ciclo de vida acabou, eu preciso ir. Vou feliz”.

Eu saí dali com a sensação de que eu não tinha vivido bem e o suficiente para morrer feliz e sem frustração, como o meu amigo. Levando a vida, não deixando ela me levar.