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18 de janeiro de 2022
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Gabriel Abreu – Da Cenarium

MANAUS – A morte da aposentada Zenite Gonzaga da Mota, de 71 anos, em decorrência de complicações da Covid-19, ocorrida no dia 13 de março deste ano, está sendo investigada pela Polícia Civil do Amazonas. A família de Zenite registrou um Boletim de Ocorrência (BO) após a idosa ser tratada com o medicamento proxalutamida sem consentimento da família.

Zenite esteve internada no Hospital Regional José Mendes, em Itacoatiara (a 270 quilômetros de Manaus). A idosa é uma das 200 vítimas que foram submetidas ao estudo com proxalutamida no Amazonas e morreram por complicações. O estudo foi desenvolvido pelo médico Flávio Cadegiani e patrocinado pela rede de saúde Samel em Manaus e em sete municípios do Estado, sem autorização da Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (Conep), do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Prontuário de Zenite Gonzaga mostra uso do medicamento proxalutamida. (Arquivo pessoal)

Em nota, a Polícia Civil do Amazonas informou que aguarda o parecer da Justiça sobre documentações solicitadas anteriormente, instrumentos da investigação, a fim de dar início aos depoimentos dos profissionais envolvidos. As investigações estão sendo coordenadas pelo delegado Paulo Barros, titular da Delegacia Especializada de Polícia (DEP) de Itacoatiara.

Denúncia Conep

Em setembro, a Conep denunciou à Procuradoria-Geral da República (PGR) que apurasse a morte de 200 pacientes com Covid-19, no Amazonas, que receberam o remédio proxalutamida.

O coordenador da Conep, Jorge Venâncio, afirma haver duas hipóteses básicas sobre a substância utilizada para combater a Covid-19. “Eles cometeram erro gravíssimo porque teriam que ter interrompido a pesquisa após as mortes dos participantes. A outra hipótese é que o resultado é inteiramente fraudado. Eles submeterem 200 pessoas a morrerem em pesquisa que não tem valor científico nenhum. É um completo absurdo”, afirma Venâncio.

A Conep também identificou problemas na formação do Comitê Independente, exigência da própria Conep para a realização de ensaios clínicos. “Toda pesquisa tem que ter um comitê formado por técnicos que não tenham relação com a instituição e nem com o patrocinador da pesquisa, pessoas de fora, para a própria segurança dos participantes. Neste caso, além de não informarem a composição completa do comitê, ele é coordenado por uma pessoa da patrocinadora”, completa Venâncio.

A proxalutamida

O remédio é um bloqueador de hormônios masculinos (antiandrógeno), ainda em desenvolvimento pela farmacêutica chinesa Kintor. A droga está sendo testada em pacientes com alguns tipos de câncer, como o de próstata e, assim como a cloroquina e ivermectina, remédios sem eficácia no combate à Covid-19, tem sido defendida pelo presidente Jair Bolsonaro contra o coronavírus.

Posicionamentos

A Secretaria de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou, por meio de nota, que não compactua com a prática de qualquer terapêutica experimental sem comprovação científica e que os municípios que participaram do referido estudo possuem gestão plena em saúde, cabendo a eles responder por seus atos.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Itacoatiara não se manifestou até a publicação da reportagem.

Outro lado

Em nota, o Grupo Samel justificou que “na condição de campo de estudo, os Hospitais Samel apresentaram resultados extremamente positivos com o uso da proxalutamida em pacientes de Covid-19, com reduções de taxas de internação, óbitos e consumo de oxigênio hospitalar, conforme já amplamente divulgado pela empresa por meio da imprensa e das redes sociais”.