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29 de janeiro de 2022
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Rômulo D’Castro – Da Cenarium

ALTAMIRA (PA) – A morte de um mototaxista de 55 anos, em Santarém, Oeste do Pará, fez as autoridades em Saúde ligarem o sinal vermelho para a Síndrome de Haff, conhecida como “urina preta”. Genivaldo Cardoso de Azevedo passou mal e dois dias depois, na última terça-feira, 7, morreu no hospital da cidade. Familiares contaram aos médicos que Genivaldo havia comido peixe e, como os sintomas que apresentou eram parecidos com os da doença, a equipe coletou material genético e enviou para testes.

Esta é a única morte no Pará que pode ter sido causada pela doença desde o início do surto. Santarém tem, de acordo com a Secretaria de Saúde do município, 9 dos 17 casos suspeitos registrados pelas autoridades paraenses. Os primeiros casos na região Norte surgiram em agosto, no Amazonas. Em Manaus e em Itacoatiara foram mais de 50 casos, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM). Em Itacoatiara, uma mulher morreu.

Por ser um grande consumidor de peixes do Amazonas, e responsável por parte significativa das espécies oriundas do Estado vizinho, o Pará recomendou que os municípios revissem a compra de pescado amazonense. O impacto da doença foi imediato. A venda de peixes como tambaqui despencou 90% e fez com que muitos paraenses repensassem o consumo de um dos alimentos mais consumidos na região. O jornalista Valdiney Ferreira, morador de Oriximiná, suspendeu completamente o consumo. “Os que estão na lista de proibidos e mesmo os demais, eu deixei de comprar por receio da contaminação. Ainda não tenho a segurança de voltar a comer peixe”, contou.

Vitória do Xingu, no Sudoeste paraense, foi o primeiro município da região a proibir a entrada de peixes das bacias do Amazonas e Solimões. Para a secretária de Saúde, Rosely Braga, a decisão foi na hora certa. “Vitória [do Xingu] é a principal porta de entrada pelo rio para outros municípios aqui do Xingu. A gente achou melhor proibir o peixe do Amazonas, porque a gente compra muito pescado de lá. É uma forma de proteger nossa região”, defendeu.

Pesquisador da Universidade Federal do Pará, especialista em doenças infecciosas, Denis Ferreira explicou que barreiras sanitárias como as impostas em Vitória do Xingu, Altamira (Sudoeste), Oriximiná, Santarém e Juruti (Oeste) são medidas necessárias em um momento que pouco se sabe sobre a doença. Ele reforçou que “a proibição de consumo vale apenas para espécies das bacias Amazonas e Solimões. O peixe capturado no Xingu e em outras regiões que não são banhadas pelos dois rios é seguro e a população pode se alimentar tranquilamente do tambaqui, da pirapitinga e do pacu capturados por aqui”.

O veterinário especializado em Saúde Sanitária, Jefferson Costa, chamou atenção para o momento em que todos precisamos seguir orientações técnicas. “Assim como no caso do Coronavírus, não dá para relaxar. Mesmo sendo uma doença infinitamente menos grave que a Covid-19, a preocupação não deve ser menor, porque os casos podem se multiplicar e resultar em caos para nossa saúde”, alerta o veterinário.

Doença

Síndrome de Haff, a “urina preta” é uma doença causada por toxina que se desenvolve em algumas espécies como tambaqui, pacu e pirapitinga. Na região Norte, as condições das bacias Amazonas e Solimões “facilitam” as ocorrências. Os primeiros registros são de meados dos anos 20, na Rússia, décadas mais tarde, a doença foi identificada em países como China e Estados Unidos. No Brasil, um surto em 2017 teve mais de 70 casos na Bahia. “Surtos podem ocorrer de tempos em tempos. É um comportamento quase natural da doença”, explica o professor Denis Ferreira.

Sintomas

Podendo aparecer até 24 horas depois da ingestão do peixe, a “urina preta” tem como principais sintomas: rigidez muscular repentina, dores musculares, principalmente, nos ombros e pescoço, perda de força nos braços e urina da cor de café, característica que deu nome popular à doença. A cor da urina, de acordo com o veterinário sanitarista Jefferson Costa, é resultado de deficiência na função dos rins, principais órgãos afetados pela síndrome.

Prevenção e tratamento

Água, muita água. Não há método específico para prevenir a doença, mas a hidratação, recomendada para qualquer pessoa, em tempos de Síndrome de Haff é ainda mais importante. Ao apresentar qualquer um dos sintomas, o indicado é buscar atendimento médico imediatamente. O tratamento é feito por meio de remédios prescritos pelo profissional.