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23 de novembro de 2021
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Náferson Cruz – Da Revista Cenarium

MANAUS – A seca dos rios este ano começa a afetar o abastecimento e o escoamento da produção dos municípios no sudoeste do Amazonas, que estão praticamente isolados. É o que está acontecendo agora em pelo menos 20 comunidades do município de Itamarati, a 985 quilômetros de Manaus.

Para chegar ao município, as embarcações gastam o dobro do tempo da viagem, passando de oito para quase 16 dias. A demora no trajeto se deve à forte estiagem que atinge o rio Juruá, cujo leito está 10 metros abaixo da média. As pedras e bancos de areia que se formam no leito do subafluente do rio Amazonas ameaçam encalhar os itinerários de recreio e de produtores rurais.

O representante de Itamarati em Manaus, Antônio Mendes Amorim, disse que além dos obstáculos provocados pela seca dos rios, os ribeirinhos acabam enfrentando outros problemas, como o barateamento das mercadorias.

“Há ainda dificuldade na chegada de combustível e insumos nos municípios, com isso a oferta nesse período é maior que a procura e os comerciantes acabam sendo obrigados a vender mais barato”, disse Amorim.

Por telefone, o ribeirinho Francisco Ferreira, 52 anos, disse à REVISTA CENARIUM, que lamenta pelos efeitos causados pela vazante, mas acredita que ações inconscientes praticadas pelo homem, que resultam em queimadas, desmatamento e poluição dos rios, foram determinantes na drástica modificação do cenário natural. Paranás, furos e igapós, repletos de água torraram sob o sol forte, descreveu Ferreira.

“O rio está desaparecendo. Dói na gente olhar tanta poluição nas margens dos rios. Se não houver mais cuidado, vai chegar um tempo que a gente não vai ter mais nem o ‘fiozinho’ do rio que aparece agora”, profetiza o morador da comunidade Queriru 3.

Outras dez comunidades também estão praticamente isoladas. São elas: Nova Morada, São José, Xeruan, Canamã e Querirú 1 e 2, somadas a mais quatro aldeias indígenas. Mais dez estão prestes a ficarem isoladas, segundo a representação do município.

Os moradores de Benjamin Constant, a 1.119 quilômetros de Manaus, também começam a sentir os efeitos da vazante, principalmente, aqueles que atuam no terminal portuário com o comércio e logística das cargas das embarcações. Banhada pelo Paraná do Javarizinho, braço do rio Javari, a cidade já não recebe, desde a semana passada, as embarcações provenientes da capital amazonense e de municípios da calha do Solimões.   

De acordo com Olivaldo Carlos Filho, chefe de gabinete da prefeitura de Benjamin Constant, a vazante do rio que banha a cidade direcionou as médias e grandes embarcações para o município de Tabatinga, a 26 quilômetros de Benjamin Constant.

“Sempre nessa época do ano, a logística dos itinerários fica complicada, o que resulta no difícil acesso para as cargas chegarem à cidade”, contou Olivaldo Filho. Ele informou que a prefeitura entrou em contato com o Subcomando de Ações de Defesa Civil (Subcomadec) do Estado do Amazonas, com o intuito de receber apoio nas investidas para amenizar os danos causados pela estiagem. As providências também estão sendo tomadas pela prefeitura de Itamarati.  

Duas mil pessoas sofrem com a vazante do rio

De acordo com a representação da prefeitura de Itamarati, aproximadamente 2 mil pessoas já estão sendo afetadas pela seca. Segundo Francisco Ferreira, na comunidade onde mora, Queriru 3, cerca de 5 toneladas de farinha estão ‘presas’, desde a última semana por não ter como ser levada até a sede do município. “A seca no rio Juruá está elevada, principalmente neste mês de setembro em que as chuvas cessam e as queimadas são constantes”, explica.

São cenários desoladores afetados e provocados pela estiagem. Em diversos pontos ao longo do rio Juruá há aglomeração de urubus se alimentando de peixes mortos, revela o ribeirinho.

Distribuição de energia pode ser afetada

A estiagem que atinge os municípios do sudoeste do Amazonas há cerca de um mês também pode afetar de alguma forma – pela falta de combustível – o sistema de distribuição de energia elétrica de Itamarati.