Sindicalista acusa desencontro entre indústrias e governo no combate a Covid-19

Nícolas Marreco – da Cenarium

Durante a crise no sistema público de saúde e a superlotação na rede privada, uma frente que pode somar no assistencialismo aos infectados por Covid-19 é o setor industrial. Executivos do Polo Industrial de Manaus (PIM) tem doado diversos insumos desde o início da pandemia no Amazonas, embora o secretário nacional da Força Sindical, Carlos Lacerda, afirme que podem fazer mais.

Também coordenador do Sindicato Nacional dos Aposentados, com 270 mil filiados, ele atuou como operário padrão no Amazonas desde os 16 anos e consolida uma história sindical de ao menos três décadas. Hoje, aos 63, ele afirma que o potencial do PIM poderia ser mais aproveitado – no âmbito internacional, inclusive – e criticou o desencontro da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) com a bancada federal de parlamentares.

“Vejo uma desarticulação muito grande. Hoje temos 40 mil trabalhadores nas fábricas asiáticas; significa que temos um poder muito grande de trazer máscaras e aparelhos. A Coréia doou um bilhão de máscaras para os Estados Unidos; e aqui é que estão as grandes fábricas, o polo de motos do Brasil está aqui”, observou.

O sindicalista acusou o superintendente da Suframa, Alfredo Menezes, de ser omisso, usando holofotes da mídia como um tipo de escudo. “Ninguém mais vê ele, só em fotos com o Bolsonaro. A Suframa é a responsável de chamar as empresas e o governo. Aqui, não estamos dizendo que o setor não já colaborando, mas é pouquíssimo para a situação que está”, continuou.

Recentemente, o governo do estado divulgou que a coreana Samsung anunciou a doação de 500 tabletes e 500 computadores para o Hospital Nilton Lins. Através do braço de pesquisa tecnológica, Sidia, também doou 20 notebooks para o Hospital de Medicina Tropical e mais 120 notebooks para a Secretaria de Estado de Saúde (Susam).

Sobre a região Norte, Lacerda frisou que a representatividade tem pouco poder no Congresso Nacional por falta de união. “O Nordeste cresceu muito pela união política. Quando que oito deputados federais ganham de 70 (referindo-se à região Sudeste)? Todas as grandes cidades do Nordeste têm metrôs, e aqui a gente fica nessa de todo mês porem a ZFM contra nós. O Acre puxa para o lado dele, vem Roraima… Falta uma bancada forte, não adianta trabalhar sozinho”, aconselhou.

Tempo hábil de resposta

O presidente do Centro das Indústrias do Amazonas (Cieam), Wilson Périco, refutou as declarações de Lacerda e defendeu que o auxílio “não acontece de uma hora para outra. Vemos um monte de coisa acontecendo aqui e acolá e ao invés de cobrar das indústrias que se faça mais, temos que entender onde enfocar esforços de verdade”.

Ele lembrou que agentes do PIM mudaram suas plantas de produção para reforçar na doação de máscaras e álcool em gel. Périco também citou o projeto de desenvolver respiradores mecânicos para doar ao poder público.

“As empresas não estão medindo esforços […] não adianta termos um monte de leitos e não ter profissionais qualificados. Não adianta ter um monte de hospitais e não ter gente para dar o devido atendimento”, ponderou o executivo, enfatizando a necessidade de recursos humanos especializados.

Para Lacerda, a falta de gestão de influência na pandemia ainda é a questão que faz diferença durante a pandemia. A ausência de um hospital de referência do próprio PIM e o esvaziamento de políticas públicas no interior por meio do Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviço e Interiorização do Desenvolvimento do Estado do Amazonas (FTI), alimentado pelas indústrias do PIM, foram pontos destacados por ele.

“Em quatro anos, R$ 7 bilhões foram pro FTI e o interior está abandonado. É usar as empresas para fazer uma ponte. Pouca gente sabe, mas a fortuna do banco Itaú começou aqui. Na época, o forte era vender televisor, com a família dona da Philco. E depois foram embora. Entenderam que é muito melhor fazer dinheiro com banco”, lembrou. A crítica vem na falta de um interlocutor entre esses interesses privados e as demandas da sociedade.

Falta de influencia

A verba contingenciada advinda da taxa que a Suframa paga ao governo federal, por exemplo, para ele, poderia ser revertida integralmente em investimentos no estado. “Não adianta ter dinheiro, tem que ter influência. É importantíssimo a Suframa coordenar esses movimentos. 50 respiradores é como se fosse 50 computadores. Não digo que não ajudam, mas ainda não há ação concreta”, apontou.

A comparação com Minas Gerais e São Paulo, que possuem centros médicos nos parques industriais, traz um alerta de Lacerda quanto ao atraso no desenvolvimento urbano. “Hoje, temos 82 mil trabalhadores e no mínimo 60 mil pagam plano de saúde. O plano mais barato custa R$ 150. Alguém está lucrando aí. É um absurdo. E agora, isso aqui [a pandemia] vai deixar muita lição, não é possível”, finalizou.

Em resposta, a Suframa respondeu por meio de nota via assessoria de imprensa que “tem buscado adotar todas as medidas internas e externas que estão ao alcance para auxiliar no enfrentamento à pandemia ocasionada pelo novo Coronavírus. Não apenas temos mantido contato próximo com empresas e entidades de classe da região, de forma a municiar as demais instâncias do governo federal visando à elaboração de políticas públicas emergenciais que preservem empregos e a atividade econômica de uma forma geral, como também temos buscado fomentar alternativas a partir das próprias diretrizes do modelo Zona Franca de Manaus”.

A autarquia citou que propôs o uso dos recursos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), da Lei de Informática, “para o desenvolvimento de projetos que gerem produtos, serviços ou processos e viabilizem soluções de saúde pública. […] Isso, por si só, abre a possibilidade para que empresas do PIM que tenham obrigações de PD&I movimentem todo o ecossistema de inovação da Amazônia Ocidental e do Amapá em busca de ações efetivas que colaborem para o enfrentamento da pandemia”.

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