2 de março de 2021

Com informações da Rede Brasil Atual

SÃO PAULO – A Coalizão Negra por Direitos realizou nesta quinta, 18, manifestações nas Casas Legislativas de 20 Estados do Brasil e no Congresso Nacional. O motivo da mobilização é cobrar do governo federal a retomada do auxílio emergencial, com parcelas de pelo menos R$ 600 até o fim da pandemia, e também um plano de vacinação em massa para toda a população.

A organização, formada por 200 entidades do movimento negro, denuncia à população que o estado de calamidade pública, ocasionado pela pandemia, embora não tenha criado a pobreza e o racismo, trouxe “impactos desiguais”. E tornou ainda mais vulnerável a população negra e periférica, “dada a piora substancial de suas condições de vida”.

“A luta é para todos os brasileiros por um país justo, sem racismo, sem discriminação racial e pelo fim do extermínio do nosso povo. É uma ação do povo negro para toda a população brasileira. Essa é uma pressão para que chegue a todos que estão necessitando desse auxílio. Especialmente de um cuidado enorme por conta da pobreza que vemos crescer”, explica o coordenador-geral do Projeto Meninos e Meninas de Rua (PMMR), Marco Antônio da Silva Souza, à Rádio Brasil Atual, um dos integrantes da Coalizão Negra por Direitos. 

Entre as exigências está a vacinação para todos por meio do SUS (Reprodução/Internet)

As mortes têm cor

Com mais de 10 milhões de casos e de 243 mil vidas perdidas em decorrência da covid-19, as entidades alertam que a situação é ainda mais preocupante para a comunidade negra, como ribeirinhos, quilombolas e moradores da periferia, que enfrentam maior vulnerabilidade.

Os atos ocorreram de forma simultânea pelo país e em mais de 30 municípios. Na cidade de São Paulo, o protesto teve início por volta das 10h, na região central da capital. Cerca de 200 manifestantes ocuparam as faixas da Avenida Paulista em frente ao Banco Central, denunciando aos gritos “tem gente com fome”.

Os manifestantes percorreram cerca de três quilômetros até a Câmara Municipal, onde um ofício cobrando renda básica universal foi protocolado pela bancada do Psol. Em São Paulo, segundo estudo inédito do Instituto Pólis, os bairros periféricos foram os mais afetados pelo vírus. Por conta disso, o mapeamento defende que essa população deveria ser priorizada na campanha de vacinação, como estratégia para uma imunização mais efetiva.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de História e um dos fundadores da Coalizão Negra por Direitos, Douglas Belchior, citou “as condições sociais que influenciam drasticamente a maneira como a doença chega”, como a carência de cuidados médicos.

Atos pelo país

Os movimentos articularam para hoje reuniões com os poderes municipais para exigir apoio emergencial à população por meio do Executivo ou do Legislativo. Em Pernambuco, atos realizados em Recife, Camaragibe e Olinda entregaram aos deputados estaduais João Paulo (PCdoB), Teresa Leitão (PT) e às parlamentares do mandato coletivo Juntas (Psol) o manifesto por auxílio emergencial e ampla cobertura da vacina. 

O documento também foi protocolado na Câmara Municipal de Salvador. Pelas redes sociais, o vereador Augusto Vasconcelos (PCdoB) se comprometeu como ouvidor-geral da Casa a pautar as reivindicações e “cobrar um posicionamento da prefeitura a respeito desta situação”, como tuitou. 

A situação é ainda mais preocupante para a comunidade negra como ribeirinhos, quilombolas e moradores da periferia com maior vulnerabilidade (Pedro Stroposolas)

A deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ) também respaldou a mobilização que ocorre em frente ao Congresso Nacional. A carta da Coalizão Negra também apresenta uma contraproposta à medida dos parlamentares, que querem oferecer quatro parcelas do auxílio emergencial no valor de R$ 250. Assim como se opõe à iniciativa do governo de Jair Bolsonaro, que defende o pagamento de três parcelas de R$ 200.

Avanço da fome e da miséria 

“Têm pessoas que não conseguem participar das nossas atividades de apoio emergencial porque não têm dinheiro para pagar a passagem de ônibus. É uma situação muito triste. Têm aqueles que estão fazendo comida em fogão de lenha, porque não têm dinheiro para pagar o gás. Então o impacto é muito forte”, denuncia o coordenador-geral do PMMR.

“Ontem mesmo vi uma cena horrível, as pessoas estão também mexendo no lixo para pegar comida. Uma cena que era vista cada vez menos no nosso país quando saímos do Mapa da Fome. Mas isso tem retornado de uma forma violenta”, lamentou o coordenador.

A Coalizão também cobra os parlamentares com atos no Pará, Sergipe, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Ceará, Goiás, Amazonas, Alagoas, Acre, Maranhão, Piauí, Espírito Santo, Paraíba, Rio Grande do Norte, Roraima, Rondônia, Santa Catarina e Tocantins. 

Os atos são todos acompanhados por cartazes e embalagens vazias de marmitas, que lembram da iminência da fome. “Nós já sabemos que na escala da nossa população, o povo negro é mais vulnerável. É a maior população em situação de rua, que está com maiores dificuldades econômicas e que mais sofre o impacto da desigualdade”, alerta Marco Antônio da Silva Souza.