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23 de janeiro de 2022
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Alessandra LeiteDa Revista Cenarium

MANAUS – Artistas de Parintins, no Amazonas, a 369 quilômetros de Manaus, atravessam o segundo ano da pandemia com o iminente cancelamento consecutivo do Festival Folclórico, de abrangência mundial, cuja economia gira 75% em torno da cultura.

“A Cultura e o Turismo são muito importantes para a cidade. O turismo gira muito em torno da cultura. Dois anos sem festival representa uma crise enorme para o município, onde nossos artistas foram os primeiros a parar de trabalhar e serão os últimos a retornar para o mercado de trabalho”, lamentou o presidente da Associação Folclórica Boi-Bumbá Garantido, Antônio Andrade.

Conforme o presidente do Garantido, a associação tem buscado encontrar alternativas para gerar renda aos seus artistas, para que os trabalhadores que vivem da cultura tenham condições de “chegar vivos ao final da pandemia”. “A nossa realidade parece aquela condenação: ou você morre de Covid ou de fome. Não se vive com R$ 150 (novo valor do auxílio emergencial liberado pelo governo federal), além de muita gente ter ficado de fora dessa nova rodada. Nossos artistas precisam buscar soluções para manter alguma renda nesse momento difícil que o mundo todo está vivendo e o Brasil, dessa forma tão aguda”, ressaltou.

De acordo com Andrade, desde o mês de dezembro de 2020, a associação doou aproximadamente 1.700 cestas básicas para as famílias dos artistas. “Porém, não é o suficiente. Uma cesta básica para uma família grande dura dois, três dias. Mesmo para uma família pequena dura no máximo uma semana. Precisamos de respostas, de viabilização de auxílio para esses artistas que estão em uma situação gravíssima nesse segundo ano sem trabalho”, lamentou.

Presidente do Boi-Bumbá Garantido, Antônio Andrade, vem buscando parcerias para dar suporte aos artistas em situação de vulnerabilidade devido à pandemia (Paulo Sicsú/Boi Garantido)

O presidente do Garantido disse, ainda, que a associação vem buscando parcerias, de patrocínios para tentar assegurar geração de renda para os artistas parintinenses. “Nesses tempos em que precisamos ficar em casa, só o que pode segurar as pessoas dentro de casa é a cultura, os filmes, a música, o que foi produzido de cultura. Esses artistas precisam ser valorizados, são eles quem fazem o nosso entretenimento”, enfatizou.

É preciso se reinventar

Desde que a pandemia pelo novo coronavírus foi decretada no Brasil, o alegorista do Boi Caprichoso, Geremias Pantoja, o “Gereca”, vem se reinventando para conseguir manter a família. Trabalhador não somente do Festival de Parintins, como também dos Carnavais do Rio de Janeiro e São Paulo, Gereca relata que a classe artística, sobretudo em Parintins, foi uma das mais afetadas pela pandemia. “Trabalho no Festival e nos Carnavais desde meus 16 anos, foram 12 anos em São Paulo e o último ano, 2019, no Rio de Janeiro. Então esse vírus chegou e nós precisamos encontrar alternativas de sustento. “Nós sabemos da importância do Festival para as famílias, não só para nós, mas para todos os segmentos aqui. Foi um impacto gigantesco. Então eu pensei em duas soluções: a criação de vasos artísticos para jardinagem e o desenho de caricaturas. Essa última deu muito certo e tem ajudado a me manter desde então”, contou.

Após postar as primeiras pinturas nas redes sociais, o artista parintinense notou a grande repercussão e um grande número de encomendas, foi quando decidiu investir nessa fonte de renda. “Quando chegou o mês de junho, uma empresa de Manaus me procurou para fazer uma parceria. Quem adquirisse os produtos deles ganhava uma caricatura minha de brinde. Deu muito certo e eu precisei contratar três amigos para me ajudar na época”, relembra.

Atualmente, Gereca tem um miniestúdio em casa, onde trabalha em parceria com mais um amigo.

Além das caricaturas, que acabou tornando-se uma das principais fontes de renda do artista, eventualmente recebe encomendas de esculturas, telas ou pinturas em lojas, bem como trabalhos no próprio curral do Boi Caprichoso. “As encomendas de caricaturas não geram valores expressivos, mas a gente consegue conciliar, pois a demanda é diária”, diz o artista.

Caricaturas são 100% pintadas à mão e tornaram-se a principal fonte de renda do artista ‘Gereca’ nesse tempo de pandemia (Arquivo Pessoal)

Para ele, a esperança é que a vacina chegue em grande escala até o final do ano, para que isso tudo acabe e o festival possa voltar a acontecer, bem como o Carnaval e outras celebrações populares. “Estamos na torcida para que a população seja vacinada em massa, só assim teremos nossa normalidade de volta. Consequentemente, no próximo ano, se Deus quiser, estaremos de volta com o festival”, finalizou.

De acordo com o presidente do Boi Caprichoso, Jender Lobato, o prejuízo na associação é de mais ou menos duas mil pessoas afetadas, entre profissionais diretos e indiretos. “Temos arrecadado alimentos, doando cestas básicas, mas queríamos fazer muito mais. Porém as próprias empresas que podem nos ajudar estão sofrendo com a queda nas vendas e tudo o mais. Mas não desistimos e estamos buscando soluções”, declarou.

Lobato, mencionou outra situação ainda mais abrangente: o fato de os artistas de Parintins trabalharem em outros festivais pelo Brasil, como o do Maracanã, em Faro, o Festribal em Juruti e o Sairé em Santarém, todos no Pará, além dos Carnavais em São Paulo e Rio de Janeiro, no Paraná e no Rio Grande do Sul. “Os artistas do Caprichoso foram muito afetados pois também são responsáveis pela confecção de produtos para festivais em Manaus, no Pará, em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul. Até no Festival de Gramado nós temos representantes. No Amazonas temos o de Barreirinha, de Boa Vista do Ramos, Nova Olinda, Fonte Boa, Tabatinga e Manacapuru”, citou.

Primeira loja própria

Uma das conquistas recentes, segundo Lobato, foi a parceria com a secretaria de Estado do Trabalho do Amazonas (Sebrab-AM) para a criação da primeira loja própria do Boi Caprichoso, na capital amazonense.

“Essa loja vai ter um espaço destinado aos artistas de Parintins, para que eles possam usá-lo na venda de seus produtos. Tem muito profissional da arte fazendo boizinhos, telas, esculturas, tudo para conseguir o ganha-pão. Vamos tentar dar esse suporte aos artistas com essa loja”, disse.

Artistas trabalhando na reforma do curral do Boi Caprichoso em Parintins (Comunicação Boi Caprichoso)

Em Parintins, de acordo com o presidente do Boi Caprichoso, algumas medidas têm sido tomadas pela associação folclórica na tentativa de amenizar a situação. “Agora mesmo estamos realizando reformas em nosso curral e na escola de arte, para transformar o local em um grande complexo”, mencionou, enfatizando que a mão de obra é composta exclusivamente por artistas do Caprichoso.

Outras obras estão previstas, conforme Lobato, para breve. Entre elas, está a reformulação dos galpões, para a qual também somente artistas serão contratados. “É dessa forma que vamos tentando movimentar a nossa economia. Fizemos também algumas lives e conseguimos remunerar esses artistas. É a nossa luta para tentar amenizar um pouco a dor dessas pessoas que estão, literalmente, sem poder trabalhar”, informou.

Governo fará ação de auxílio

O governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Estado (SEC-AM), informou que está conversando com os presidentes dos bumbás, com o diálogo sinalizando para a não realização do evento por conta do cenário da pandemia no Estado.
A SEC informa, também, que, se o Festival não for promovido, será realizada uma ação de auxílio aos bumbás de forma que os profissionais envolvidos não não fiquem desassistidos.

Em 2019, o público médio do festival foi de 66.321 pessoas e a movimentação financeira dos turistas durante a festa foi de R$ 50.794.959,69