24 de fevereiro de 2021

Com informações – Gazeta do Povo

ESTADOS UNIDOS – Atletas de mais de 30 países enviaram ao Comitê Olímpico Internacional (COI) um apelo para evitar a “destruição dos esportes femininos” e o que elas chamam de “flagrante discriminação contra as mulheres em razão do sexo biológico”.

Em documento, elas pedem que sejam suspensas as normas adotadas em 2015 que permitem as chamadas “mulheres trans” (pessoas do sexo biológico masculino) nas competições femininas. O pedido foi feito no fim de abril, aproveitando a decisão de adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Desde novembro de 2015, quando foi publicado um novo guia de diretrizes do COI, atletas transexuais e travestis passaram a ser aceitas em campeonatos femininos de vários países e, com isso, as mulheres perderam o direito de competir em condições de igualdade, já que o corpo masculino é, por natureza, mais forte e resistente, mesmo que tenha passado por cirurgias e terapias hormonais para ganhar características femininas.

Gabrielle Ludwig, 50, voltou a jogar basquete após a cirurgia de resignação sexual. (Reprodução/Usa Today Sports)

Ainda que se considerem mulheres, as atletas trans têm, além de estrutura corporal avantajada, altura, força física e de impulsão, capacidades pulmonar e cardíaca muito maiores do que as das mulheres, o que deixa as concorrentes em clara desvantagem. E a redução do nível de testosterona por um ano, como indica o COI, não elimina essa vantagem.

Não à toa homens esportistas de pouca expressão nos rankings do esporte masculino viraram campeões absolutos e até recordistas quando passaram a usar outra identidade social e a competir com mulheres, como foi o caso de Craig Telfer.

O jovem velocista americano, inexpressivo nas competições masculinas, virou um fenômeno nas pistas, depois de fazer a cirurgia de transição de sexo aos 21 anos, mudar o nome para Cece Telfer e tornar-se a primeira transexual no torneio universitário de atletismo feminino dos Estados Unidos.

Alvos

Por outro lado, nesses quase cinco anos de presença de atletas trans em competições femininas inúmeras mulheres viram desabar o sonho de conquistar títulos, patrocínios, contratos e muito mais. Atletas americanas do ensino médio estão processando a Conferência de Atletismo Interescolar de Connecticut, depois de perderem a chance de conseguir bolsa nas melhores universidades, simplesmente porque era impossível vencer duas transexuais inscritas no campeonato escolar.

As duas conquistaram o primeiro e o segundo lugares das provas disputadas e receberam bolsas para integrar equipes universitárias, uma delas em Harvard.

Tão cruel quanto isso é a espiral de silêncio que acaba envolvendo as mulheres esportistas. Quem ousa reclamar da presença de competidoras flagrantemente maiores e mais fortes (por serem homens biológicos, ainda que com aparência transformada para estampar traços femininos) vira alvo de agressões verbais, intimidações e campanhas difamatórias orquestradas por grupos de defesa dos direitos LGBTQIA+.

Cece Telfer (à esquerda) atleta trans medalha de ouro no campeonato de atletismo dos EUA.(Reprodução/Internet)

“Eu tive que passar por todo o ataque virtual, por um linchamento virtual, mas continuei resiliente, sempre atrelada aos conceitos biológicos e científicos de uma maneira muito calma e as pessoas viram que eu não estava ali para ficar de pom-pom ideológico”, diz a ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel, medalhista olímpica pelo Brasil em Atlanta (1996).

Ela hoje mora nos Estados Unidos e é uma das raras vozes no meio esportivo brasileiro a encarar essa discussão. “Sei que a maioria está do meu lado, elas não falam por medo até de perder patrocínio”, desabafa.

O medo é legítimo, afinal até a ex-tenista Martina Navratilova, recordista absoluta em títulos nos mais importantes campeonatos do mundo, homossexual assumida e defensora dos direitos LGBT, foi tachada de “transfóbica” ao se posicionar contra a presença de homens biológicos no esporte feminino.