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24 de julho de 2021
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Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) –  Nos últimos três anos, pelo menos 19 milhões de estrangeiros escolheram o Brasil como o destino ideal para passar as férias, aproveitando belezas naturais proporcionadas pela inconfundível riqueza de fauna e flora, em destinos paradisíacos como o território da Amazônia Legal. A informação é do Ministério do Turismo (MTur).

A chegada da pandemia de Covid-19 trouxe várias lições e efeitos inesperados. Um deles é a valorização do território nacional pelos próprios brasileiros na hora de escolher um novo roteiro de viagem, já que sair do país se tornou mais difícil, tanto pela sensação de insegurança em relação ao novo coronavírus quanto pelo endurecimento de medidas sanitárias. Dessa forma, viajar pelo país se tornou uma realidade mais próxima, segura e até mesmo necessária para a retomada do turismo. 

Impactos

Para o mestre e doutor em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina, Marcos Arnhold Junior, “o turismo, sem dúvidas, foi uma das atividades mais impactadas” pela pandemia que já matou mais de meio milhão de pessoas no Brasil.

“Hotéis foram fechados temporariamente e tiveram que reduzir suas equipes. Os restaurantes tiveram que adaptar suas atividades para servir por meio de delivery e, nesse caminho, muitas empresas que tinham um fluxo turístico e que, do dia para a noite, começaram a perder esse público, infelizmente acabaram fechando as portas e tiveram que encerrar suas atividades”, avalia o mestre e doutor em Turismo ao conversar com a reportagem da Revista Cenarium. 

Marcos Arnhold Junior é mestre e doutor em Turismo e Hotelaria, coordenador dos cursos de graduação em Turismo e Hotelaria, além de professor dos programas de mestrado e doutorado em Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí – Univali. (Reprodução/Arquivo pessoal)

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020, o setor do turismo no Brasil caiu 36,7% em relação a 2019, antes da pandemia. Só o Estado do Amazonas, principal porta de entrada para o turismo de natureza na Amazônia, registrou queda de 66% no faturamento até abril do ano passado. Também houve queda de 70% no ramo de hospedagens e, de 72%, em relação aos ganhos das agências de turismo, de acordo com a pesquisa Raio X do Turismo Frente à Covid-19, da Rede Observatório de Turismo (Observatur) da Universidade do Estado do Amazonas.

O ecoturismo como resposta

A pandemia serviu para mudar o olhar do brasileiro a respeito do ecoturismo (ou turismo de natureza), que aparece como opção segura e de escape para os desgastes físicos e mentais causados pelo isolamento social e outros estresses da luta diária contra o vírus.

“Os destinos brasileiros estão em alta, isso em função do momento que estamos vivendo, uma vez que temos uma série de restrições para viagens internacionais, e, em curto prazo, ainda vamos viver essas restrições. Então, o brasileiro está olhando para o Brasil. E não há dúvida nenhuma de que a Amazônia é um dos principais destinos quando se fala de turismo de natureza. É um roteiro cobiçado e entendo que ainda há muito espaço para crescer. Ainda existem muitos brasileiros que precisam conhecer a Amazônia, e, com certeza, ela aparece na lista de desejos desses viajantes”, aponta Arnhold Junior. 

“O turismo é uma atividade que traz uma série de benefícios sociais e econômicos, além de benefícios culturais e ambientais, desde que seja gerenciado de maneira correta, com planejamento e pensando nos critérios de sustentabilidade. O turismo beneficia, não só quem está ligado diretamente à prática, mas ele traz, também, o efeito multiplicador, ou seja, o turista traz o dinheiro para esta região ou esta cidade; o dinheiro é pago no hotel, no restaurante, e circula entre a comunidade”, ressalta o especialista.

Esses são conceitos que o jornalista Denilson D’Almeida, de 35 anos, conhece muito bem. Morador de Belém, no Pará, é apaixonado pela Amazônia e vive visitando diferentes lugares da região, aproveitando as belezas naturais que só a maior floresta tropical do mundo poderia proporcionar. Não é a toa que ele exibe o título de “quase mochileiro” e uma de suas redes sociais. À Revista Cenarium, ele conta que o gosto vem de berço. “O meu pai era natural de uma cidade do interior do Pará. Passei a infância e parte da adolescência viajando com ele nas férias e aos finais de semana para lugares onde ele tinha familiares. Ele também gostava de praia, sempre que podia levava a gente para tomar banho de mar. Acho que herdei dele o gosto por fugir da rotina e da correria urbana para ter um contato com a natureza”. 

O jornalista Denilson D’Almeida tomou gosto por viagens por incentivo do pai. (Reprodução/Arquivo pessoal)

“Hoje, toda folga que tenho, todas férias, pego a estrada rumo a algum lugar tranquilo, de paisagem exuberante e de uma vivência própria. Prometi tentar não ficar repetindo lugares e aproveitar para conhecer sempre outros. Fazer descobertas e me redescobrir no mundo”, afirma o “quase mochileiro”, que até conta suas aventuras turísticas por meio de um blog

Ele ainda conta que, durante o ensino médio, sonhava em viajar por todo o mundo, mas, que, agora, prefere valorizar o que o próprio país tem a oferecer.  “E esta tem sido uma das melhores coisas da minha vida. Nunca a frase do poeta Ruy Barata, que diz eu sou de um país que se chama Pará”, fez tanto sentido como faz hoje para mim. O Pará é o segundo maior Estado da Amazônia Legal – em termos territoriais. Temos aqui toda a biodiversidade que a floresta e os rios nos oferecem e compõem os melhores lugares para serem conhecidos e preservados. No Pará, já conheci piscinas naturais, praias de mar e de rio, fiz trilhas por florestas, me refresquei em cachoeiras. Vivi um pouco do muito que é o Marajó, seus cenários, campos e culturas. 

Retomada

Apesar de acentuado, visto como a opção mais segura durante a pandemia, o Ecoturismo já apresentava crescimento anual mesmo antes da chegada do vírus. Segundo o IBGE, a alternativa foi o motivo de 60% das viagens realizadas por brasileiros dentro do próprio território nacional  em 2019.

“A pandemia me fez ter uma grande pausa nas viagens. Eu fiquei com medo de ser contaminado pelo coronavírus e medo de contaminar alguém. Viajar pelo Estado me fez conhecer as mazelas sociais de muitos lugares lindos, mas carentes de políticas sociais e de saúde, lugares muito mal administrados falando de gestão pública. Lugares que não têm médicos, não têm leitos, não têm hospitais (…)  Retomei as viagens recentemente, mas escolhendo lugares onde o meu contato com as pessoas seja mínimo”, conta o aventureiro jornalista Denilson D’Almeida.

Marcos Arnhold, mestre e doutor em Turismo, já percebe a retomada “com quantidades limitadas e percentuais liberados na hotelaria, autorização de abertura de restaurantes com determinadas regras e volta das viagens aéreas (principalmente nacionais)”. “O setor tem dado uma reativada. Existe, novamente, movimento turístico acontecendo, mas claro que isso depende da adaptação das empresas”, avalia.

Para ele, também é possível retomar a prática  do turismo, sobretudo na Amazônia Legal, respeitando os limites da natureza. “Você pode trabalhar com o estudo de capacidade de carga, limitando a capacidade de turistas em determinados espaços, principalmente aqueles que têm ecossistemas mais frágeis. Mas, da mesma forma, a atividade turística pode ser uma grande forma de conscientização ambiental. Por meio dessas atividades com a natureza, você consegue conscientizar o turista a respeito da preservação deste espaço. Além de que, se houver gestão pública direcionada para este ambiente, é possível obter legislações municipais, estaduais e federais, delimitando esses espaços para que eles tenham uma gestão sustentável dessa atividade no entorno”.

“Conhecer a Amazônia é conhecer a si próprio, sua ancestralidade. Conhecer múltiplas culturas, saberes, crendices. Conhecer a Amazônia é ver um mundo criado por um Deus que é bom o tempo todo, que pensou em tudo o que o ser humano precisa e que oferece a ele em pequenas coisas espalhadas pela floresta, pelos rios. A gente precisa conhecer a Amazônia não somente pelas cidades que foram fundadas por colonizadores europeus, mas por ser uma terra que te oferece a vida. Um universo de experiências que você não precisa de muito para conhecer. Precisa apenas ter vontade de viver”, destaca o viajante D’Almeida. 

Fé na vacina

“O que acontece é justamente a expectativa de que a vacinação avance. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e até Santa Catarina têm anunciado que até setembro/outubro estarão com as suas populações vacinadas. Então, isso dá muita esperança para o setor e faz com que muitas empresas trabalhem com a perspectiva de uma temporada de verão de 2021, numa expectativa muito grande da retomada do turismo. E, aos poucos, a gente também deve ver a retomada do turismo internacional, na medida em que os números venham a baixar em relação à pandemia e, que os números da vacinação aumentem”, celebra Marcos Arnhold ao mostrar uma visão mais otimista para o cenário.