Ensino a distância muda rotina de alunos e professores em tempos de pandemia

Stephane Simões – Da Revista Cenarium

MANAUS – Em razão da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), as aulas das redes públicas de ensino do Amazonas precisaram ser suspensas como medida de combate à proliferação do vírus. Mas, para evitar atrasos no cronograma escolar, o governador Wilson Lima lançou o programa ‘Aula em Casa’, no dia 20 de março. Já a Prefeitura de Manaus fechou parceria com o Estado e assinou um Termo de Cooperação Técnica para ampliação de séries atendidas no programa, no dia 25 de março, beneficiando aproximadamente 450 mil alunos das redes públicas.

O Amazonas foi o primeiro do País a adotar o programa, com conteúdos voltados para alunos do 6° ao 9° ano dos ensinos Fundamental e Médio, em um regime especial de aulas não presenciais, inicialmente transmitidos por três canais da estatal TV Encontro das Águas e pela internet.

A ação, que visa dar continuidade às atividades pedagógicas, está regulamentada pelo Conselho Municipal de Educação (CME-Manaus), Resolução N° 3/2020; pelo Conselho Estadual de Educação (CEE/AM), Resolução N° 30/2020; pelo Governo Federal, com a Medida Provisória N° 934/2020; e orientado pelas Diretrizes Pedagógicas.

Apesar da inciativa, a psicopedagoga Ocianne Oliveira afirmou que tem observado que uma minoria está sendo alcançada, pois nem todos os alunos possuem acesso a televisão e a internet, o que deve afetar diretamente no ensino presencial.

“Nós temos uma parcela de crianças que têm condições mínimas, com relação ao social. Então, poucas crianças serão alcançadas. As aulas estão passando na televisão. Tem um canal disponível no YouTube, para aquelas crianças que perdem aula. Só que nem todas as crianças têm acesso. Alguns pais já falaram que não têm condições, que não têm televisão em casa, e a gente sabe que essa é a realidade de grande parte das famílias”, disse.

A psicopedagoga acredita que o ensino sofrerá uma defasagem no conteúdo e na aprendizagem. O impacto deve afetar tanto os alunos quanto os professores, que terão que se adequar a nova realidade.

“Será um trabalho muito difícil, tanto da parte dos professores quanto da própria criança. Os conteúdos estão sendo levados em consideração em relação a cada série, como se fosse um conteúdo dado. Mas nós sabemos que, quando voltar para a sala de aula, muitas crianças estarão com dificuldade”, afirmou.

A especialista chamou a atenção para as crianças que possuem dificuldades especiais, a exemplo dos autistas. “As crianças com dificuldades especiais também terão um grande déficit. Por exemplo, os autistas têm uma rotina, e eu vejo que essas crianças estão com um pouquinho de dificuldade de estarem em casa, pois eles não veem a casa como um ambiente educacional. Então, o trabalho com eles é um pouquinho mais difícil”, pontuou Ocianne.

Mesmo diante das dificuldades que devem ser encaradas diariamente, a psicopedagoga acredita que a medida de não interromper totalmente as atividades escolares foi uma ação importante e que servirá como modelo para melhorias no ensino público.

“Pelo menos foram sugeridos meios de não interromper totalmente as atividades. Nós sabemos que não é perfeito, que não vai ser tão eficaz assim, mas é algo a ser pensado para, futuramente, buscar melhorar os canais onlines e os meios virtuais na escola”, acrescentou.

Outro lado positivo para Ocianne é que, com a nova modalidade de ensino que está sendo adotada, os profissionais da educação podem observar como está sendo realizado o acompanhamento familiar, que também é importante na vida escolar.

“A gente consegue ver quais são os pais que realmente estão dispostos a dar apoio para os filhos em casa, pois nós sabemos que não são todas as famílias que acompanham a vida escolar do aluno. E isso está mostrando para a gente qual a família que está ou não do lado da criança”, afirmou.

A psicopedagoga recomenda que os pais esclareçam que o momento não é de férias e que expliquem a situação em que estamos passando.

“O mais recomendável é a criança tentar manter a mesma rotina como se ela estivesse indo para a escola. O ideal é ela assistir as aulas e fazer as atividades dentro do mesmo horário em que ela já costumava estudar, para não perder o ritmo”, destacou.

Acompanhamento dos professores

Mesmo impossibilitados de acompanhar os alunos presencialmente, em algumas escolas, a psicopedagoga afirmou que os professores criaram grupos no WhatsApp para tentar sanar dúvidas dos responsáveis e verificar a realização das atividades diárias.

“Algumas escolas criaram grupos no WhatsApp com os responsáveis e eles mandam fotos da atividade que o aluno está fazendo. A maioria dos professores fica disponível para responder dúvidas e tentar auxiliar de alguma forma”, contou a pedagoga.

O professor Gabriel Mota é servidor das secretarias Municipal (Semed) e Estadual (Seduc) de Educação, nos turnos três turnos do dia. Segundo ele, nas três escolas em que trabalha, o procedimento adotado foi o mesmo.

“As secretarias estipularam que nós deveríamos estreitar o contato com os alunos e responsáveis, criando grupos no WhatsApp. Então, toda a semana eles recebem o calendário das atividades que eles precisam assistir, com data, aula e o conteúdo. O professor está no grupo de cada série para enviar as atividades relacionadas ao conteúdo”, explicou.

A presença dos alunos tem sido registrada normalmente e passada para o gestor de cada escola, que preenche uma ficha e envia para a secretaria.

“Vale ressaltar que nenhuma secretaria deu número corporativo para nós trabalharmos, nós estamos lidando com os alunos no nosso número pessoal. Além disso, algumas assessoras pedagógicas entraram nos grupos para reforçar a importância dos alunos participarem”, falou.

Orientação aos professores

Segundo a presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), deputada Therezinha Ruiz, no dia 1° deste mês, foi realizado um bate-papo com os professores para receberem orientação. O próximo encontro está marcado para o dia 10 de abril.

“Isso é importante, pois muitos professores ainda estão com dificuldade de fazer essa interface de conteúdos através das mídias. Serão dois tutorias, que devem ser veiculados pela TV Encontro das Águas”, afirmou.

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