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16 de outubro de 2021
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Com informações Folha de São Paulo

SÃO PAULO – Pioneiro no uso de dados estatísticos sobre raça e cor como instrumento de promoção da equidade racial no acesso a trabalho, educação e justiça, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) comemora 30 anos de existência, ao longo dos quais viu as demandas por equidade racial no mercado de trabalho ir de zero a dez.

Parte deste processo, o Ceert anuncia nesta terça-feira, 20, uma parceria com a Rede Brasil do Pacto Global, das Nações Unidas: o programa Equidade é Prioridade Étnico-Racial.

O Ceert foi fundado e é dirigido pela psicóloga e colunista da Folha Cida Bento, eleita pela revista britânica The Economist como uma das 50 pessoas mais influentes do mundo no campo da diversidade. E o programa foi desenhado como um facilitador de diversidade racial em cargos de liderança de empresas da iniciativa privada atentas às demandas sociais por representatividade e às potencialidades de composições mais plurais.

“O primeiro retorno de participar do programa é a empresa ficar mais concernente com o seu contexto e, portanto, mais atenta a quem consome seus produtos ou serviços”, explica Bento. “Boa parte das organizações hoje sofrem pressões de investidores e parceiros para que deixem de ser monolíticas, uma bolha branca quase que ameaçada por um território que se sente totalmente excluído”, afirma.

Hoje, 56% da população brasileira se declara negra, mas apenas 4,7% dos quadros executivos das 500 maiores empresas do país são negros, segundo o Instituto Ethos. Nos postos de gerência a proporção de negros é de 6,3%. Jáentre aprendizes e trainees, o percentual de negros é de cerca de 57%.

Crescente

Ao mesmo tempo, estudos da consultoria internacional McKinsey já apontaram para uma relação positiva entre diversidade e performance financeira: empresas que investiram em diversidade étnica e cultural superaram em 36% a lucratividade das concorrentes que não fizeram este investimento.

“Muitas empresas entendem que é suficiente preencher de maneira diversa os cargos de base e, quanto mais alta é a posição na pirâmide da empresa, mais branca e masculina ela fica”, diz Júlia Rosemberg, especialista em relações raciais e de gênero no Ceert. “Trabalhar diversidade sem marcar diferenças nem criar metas é perfumaria.”

Estudos apontam uma relação positiva entre diversidade e performance financeira (Reprodução/Internet)

Rosemberg explica que o programa inclui um censo institucional de cada empresa, uma análise de dados setoriais e regionais e um diagnóstico dos processos de recrutamento e promoção. A partir de todas essas variáveis, é estipulado um plano de ação com metas factíveis para cada caso.

“O setor privado brasileiro está cada vez mais maduro quanto à diversidade, mas necessita aumentar e acelerar”, afirma Carlo Pereira, diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU. “É importante ampliarmos os compromissos públicos sobre equidade e identificarmos que as empresas precisam dar mais oportunidades para pessoas negras em cargos de liderança e se comprometerem com elas.”

Para o diretor-executivo do Ceert, o advogado Daniel Teixeira, para além de legitimidade e representatividade, as empresas que se inscreverem no programa “ganham futuro”. “No Brasil de hoje, não tem mais como a população negra ficar de fora sem causar muito barulho. E essa demanda aumentou ainda mais depois do assassinato de George Floyd, nos EUA, e de João Alberto Freitas, no Brasil.”

Políticas públicas

A parceria com o Pacto Global coroa uma trajetória institucional do Ceert dedicada a assessorar instituições públicas e privadas na promoção da equidade racial, além da promoção do acesso a direitos pela população negra.

Fundado por Cida Bento, pelo advogado Hédio Silva Júnior e pelo sociólogo Ivair Alves dos Santos em setembro de 1990, o Ceert foi forjado nas articulações do movimento negro pela Constituinte e no calor da consagração do racismo como crime inafiançável e imprescritível.

“Fomos concebidos nesses processos coletivos, atuando de forma orgânica com os movimentos sociais, e o nosso grande objetivo sempre foi a defesa de direitos e a abertura de instituições para que se tornem mais cidadãs e democráticas”, explica Bento. Ela destaca essa relação orgânica a partir da participação do Ceert em coletivos como a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e na Coalizão Negra por Direitos.

Desde a fundação, o Ceert ajudou a colocar as relações raciais numa agenda de políticas públicas para a educação, o trabalho e a justiça social que ignorava a questão, contaminada pelo mito da democracia racial.

“Fico impressionada com o quanto eu e o Ceert somos procurados hoje. Em 1991, era justamente o inverso”, observa a diretora da entidade.

“Cida Bento é uma pesquisadora altamente reconhecida no campo dos estudos sobre trabalho e relações raciais, assim como é uma incansável ativista na luta contra a discriminação no acesso ao emprego e nos locais de trabalho”, afirma a socióloga Márcia Lima, professora da USP e coordenadora do Núcleo Afro, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). “Se avançamos na agenda sobre diversidade racial no trabalho, devemos muito ao Ceert.”

No Brasil de hoje, não tem mais como a população negra ficar de fora sem causar muito barulho (Reprodução/Dino)

Mudanças

Já em 1992, o centro denunciou o Brasil à Organização Internacional do Trabalho pelo descumprimento da Convenção 111, que trata da discriminação em matéria de emprego. De lá para cá, colecionou vitórias em casos emblemáticos de racismo, o mais recente deles foi a condenação em primeira instância do aluno da FGV de São Paulo que chamou um colega negro de “escravo”.

Na promoção da equidade racial no mercado de trabalho, a organização consagrou um modelo de censo de diversidade desenvolvido pelo sociólogo Mário Rogério, diretor do Ceert, que faz um retrato das instituições a partir de dados de raça cruzados com cargos, salários, promoções e oportunidades, criando indicadores de inclusão racial.

“As empresas se sentem pressionadas, e a pressão, principalmente nas redes sociais, sobre elas é muito grande”, afirma a socióloga Neca Setúbal, presidente da Fundação Tide Setúbal.

“Teremos empresas que vão usar isso na superfície, como marketing e moda, e outras que vão fazer um trabalho mais sério e aprofundado. É um caminho longo, como o Ceert sabe bem, porque envolve quebra de preconceitos e mudança de cultura e de lugar. Não é fácil abrir esse espaço”, avalia ela, que enxerga avanços no setor da educação privada, a partir de mudanças curriculares, contratação de professores negros e concessão de bolsas de estudos para negros. “Temos de celebrar isso e torcer para que entre na educação pública, onde estão 80% dos estudantes brasileiros.”

Ao longo dos anos, o Ceert se tornou referência também na área da educação. Mapeou 3.000 práticas de equidade em escolas públicas de 1.100 municípios brasileiros e criou o Prosseguir, um programa de bolsas para fortalecer jovens lideranças negras que hoje chegam às universidades e para qualificar a entrada desses jovens no mercado de trabalho.

“Existe uma juventude negra muito inquieta, impaciente, querendo mudança e com urgência para isso”, diz Bento. “A presença negra triplicou nas universidades a partir das políticas de cotas. Como o mercado de trabalho vai lidar com isso? Esse debate nunca esteve tão aquecido.”

Para ela, é difícil mensurar os avanços ocorridos em relação à desigualdade racial no campo da educação e do trabalho, uma vez que que os dados do Censo mais recentes são de 2010, e muitas mudanças ocorreram de lá para cá. “Tenho a sensação que isso pulula, cresce. Acho que veremos mudanças expressivas nos próximos anos.”