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6 de maio de 2021

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Com informações do Portal IG

MANAUS – Há diversos aplicativos focados em encontrar parceiros sexuais e relacionamentos amorosos e, alguns deles, são voltados exclusivamente para o público LGBTQIA+ . No Brasil, país onde 63,7% da população considera que a  raça interfere na qualidade de vida dos cidadãos (IBGE), o racismo está presente em todas as instâncias, incluindo nessas plataformas onde comumente a discriminação racial é relatada como objetificação e sexualização do corpo negro.

“Uma vez, um ‘carinha’ disse que o lugar em que moro é uma favela e que, por isso, não iria vir aqui [depois de convidado]. Em relação à minha cor, é sempre a mesma coisa: acham que negros são ‘dotadões’ e que têm que ser ativos [sobre a preferência de posições sexuais]. Já chegam assim na abordagem, pedem foto mais de perto e falam logo ‘você é negro, então deve ser bem avantajado’”, narra Santos.

Ele ainda relata que, muitas vezes, as descrições dos perfis dos homens que o abordam dessa maneira já apresentam frases discriminatórias. “A maioria é perfil de homens que se dizem casados. Eles já deixam claro na descrição que querem homens negros e dotados ou que não se relacionam com negros. Além, é claro, de afirmarem que não se relacionam com homens efeminados”, afirma o estudante.

Ao se deparar com certos perfis e abordagens, Gilberto diz que evita continuar conversando, por saber o quão agressivo pode ser o que ele pode ouvir. “É um problema que a maioria dos negros enfrenta, mas eu tento não me deixar atingir. Isso, para mim, é indiferente. Quando percebo algo do tipo, eu corto logo, bloqueio a pessoa”, diz o internauta.

Comunidade

O sociólogo Huri Paz, pesquisador do grupo Afro/Cebrap e do Núcleo de Estudos Guerreiro Ramos (Negra), da Universidade Federal Fluminense (UFF), defende que o racismo é um sistema de discriminação estrutural, presente em todos os grupos e instâncias da sociedade e que, por isso, aparece também dentro da comunidade LGBTQIA+ e nos aplicativos de relacionamento voltados para ela.

“A sociedade brasileira é formada em um sistema educacional que não apresenta as questões culturais, afro-brasileiras, indígenas, um sistema que não trata os corpos das pessoas pretas e pardas e indígenas como corpos humanizados, que têm desejos, que sentem dor, enfim, como corpos humanos. E a comunidade LGBTQIA+ está inserida nisso, então, claro que o racismo também se expressa dentro dessa comunidade e com tessituras específicas”, afirma Paz.

Para o pesquisador, o racismo pode ser expressado por mecanismos específicos de opressão que fazem dela algo costumeiramente velada: “Tecnologias do racismo”. “Muitos autores, como a Bel Hooks, a Patrícia Rio Collins e a própria Lélia Gonzalez falam sobre essas tecnologias, que são as formas do racismo se manifestar na sociedade e no cotidiano. A sexualização, a estereotipação e a objetificação [dos corpos negros nos aplicativos] são as formas como o racismo opera. Um corpo hipersexualizado não possui humanidade, só pode servir para o sexo”, explica Paz.

Segundo o estudioso, exemplos dessa hipersexualização estão presentes no cotidiano entre LGBTQIA+ ou não. Ele cita a entrevista de Xuxa e Taís Araújo, na qual a Rainha dos Baixinhos diz que gostaria de ter nascido “um negão”, fazendo gestos referentes a um homem grande e forte; cita também o governo Eduardo Paes que, ao entregar uma casa para uma mulher negra no Rio de Janeiro disse para ela: “Vai transar muito, né?”. Ou ainda a mulata do Carnaval, sambando e exibindo seu corpo, vista por muitos unicamente como objeto sexual.

“A grande perversidade de hipersexualizar um corpo é que ele nunca vai ser digno de receber amor e afeto, de viver um relacionamento amoroso a longo prazo, mas vai ser sempre lido como um corpo que deve ser usado apenas para descarregar pulsões sexuais. Essa tecnologia e outras ajudam a manter o racismo no nosso cotidiano”, opina Huri Paz.

Uma pesquisa de 2016 feita pela Travel Gay Asia e pela Gay Star News apontou que os usuários gays dão preferência ao uso do Grindr quando vão procurar parceiros sexuais ou paquerar on-line. De 2 mil pessoas entrevistadas, 74% afirmaram usar o aplicativo. Depois dele, as outras quatro principais plataformas a se destacaram no estudo: Scruff (31%), Hornet (27%), Tinder (27%) e Jack’d (24%). Veja a matéria completa no Portal IG.