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29 de janeiro de 2022
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Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – O anúncio de reabertura das escolas feito pelo Governo de Rondônia nesta semana deixou pais, professores e alunos apreensivos. Com o retorno das atividades educacionais de forma presencial nas escolas da rede estadual programada para 1º de agosto, o Estado justifica a ação por conta do avanço da vacinação de professores e demais profissionais da educação, que começou neste mês, de forma tardia.

Até agora Rondônia tem, vacinados apenas com a 1ª dose, pouco mais de 21 mil profissionais da categoria, entre servidores das redes municipal, estadual e privada. A data de retorno das aulas aparece junto de outras alterações feitas no atual decreto de enfrentamento à Covid-19. Na versão mais recente do documento, em vigor desde segunda-feira, 21, o governo voltou atrás e proibiu as festas com público de até 999 pessoas, que havia liberado uma semana antes.

Mesmo coibindo eventos de grandes proporções e sem vacinação ampla para os estudantes, geralmente abaixo dos 18 anos, a comunidade escolar do Estado teme o aumento de casos da doença mais severa dos últimos tempos, que já infectou quase 250 mil e matou mais de 6 mil rondonienses.

Linha de frente

A professora Lucineide de Oliveira Cavalcante, de 44  anos, que atua na rede, na cidade de Costa Marques, a 714 quilômetros de Porto Velho, ainda não se sente segura. Ela recebeu apenas a primeira dose da AstraZeneca e atende a 180 alunos, divididos entre 3 turmas de ensino fundamental e 5 turmas de ensino médio, com cerca de 25 estudantes em cada.

“Ela defende o ensino remoto como a alternativa mais segura, mesmo reconhecendo a dificuldade de acesso por parte dos alunos à internet, computador ou aparelho celular como ferramenta de estudo. “Ainda não me sinto segura,  pois ainda não estou imunizada. Acredito que o passo mais importante (para a retomada) é a imunização, não somente de algumas categorias, mas de toda a população”, diz a profissional.

“Mesmo com todas as dificuldades, é ainda mais visível a desigualdade social, mas o ensino remoto tem sido a única forma de não colocar alunos e servidores em risco. Buscamos nos reinventar para atrair a atenção e a participação deles,  mas nem sempre isso é possível. Não é fácil para ninguém. Por outro lado, é o mais seguro. E a vida deve ser pensada em 1° lugar”.

Lucineide de Oliveira prefere que as aulas retornem depois que todos profissionais da educação estejam vacinados com as duas doses de vacina contra a Covid-19. (Reprodução/Arquivo pessoal)

Medo de novas perdas

A Hemilly Caroline Avelino, de 16 anos, estuda na mesma escola onde Lucineide é professora, Angelina dos Anjos, a única que oferece grade curricular pós-ensino fundamental na pequena e tranquila cidade, que tem quase 19 mil habitantes.

Ela ainda está na espera pela vacina, torcendo para que seja AstraZeneca ou Pfizer, como diz a estudante. Apesar da alegria de concluir o último ano do ensino médio, agora em 2021, considera o retorno presencial como “uma medida muito precoce”. “Não sou favorável, uma vez que a imunização ainda não tem alcançado um percentual satisfatório que possa ainda possibilitar certa segurança”, justifica.

Para a estudante do 3º ano do ensino médio, Hemilly Caroline, a medida é “muito precoce”. (Reprodução/Arquivo pessoal)

Rondônia tem 22,54% de sua população total (de quase dois milhões de habitantes) vacinados contra a Covid-19 com pelo menos a primeira dose de CoronaVac, AstraZeneca ou Pfizer. Já os rondonienses que completaram a imunização, recebendo a segunda, representam apenas 8,1% de todos os habitantes. “A imunização dos profissionais da educação já está ocorrendo, mas infelizmente sabemos que não é o suficiente, pois a cada dia, o índice de contaminação da Covid-19 vem crescendo na população mais jovem”, ressalta Hemilly Caroline.

Pais inseguros

Na casa de Graciela Carvalho, que também é professora, a preocupação é em dobro. Ela tem um filho de 8 anos, matriculado em uma escola municipal e outra filha de 13 anos, que cursa o 8º ano do ensino fundamental também na escola Angelina dos Anjos. Descrente da eficácia da decisão do governo do Estado, decidiu que os filhos permanecerão em casa.

“A gente fica com o coração, logicamente, apertado. Eu já disse aqui em casa e meu esposo também está de acordo: nós não vamos mandar nossos filhos para escola nesse retorno. Vamos aguardar ainda, porque não sentimos segurança no momento em que estamos vivendo”.

Para ela, a imunização está sendo muito lenta e poderia ter sido mais acelerada no Estado “para ver se realmente vai surtir efeito”. “É uma pena que os governantes não deem ouvidos à população. O Estado não ouviu os pais, tão pouco ouviu os professores ou a comunidade estudantil. Não completou nem 30 dias que nós tomamos a primeira dose e o governo já decretou o retorno das aulas. As propagandas do governo federal e estadual realmente são muito bonitas, mas estão longe da realidade das nossas escolas, especialmente nos interiores do Estado.

O que diz o sindicato?

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia (Sintero) se posicionou contra o anúncio do governo estadual, afirmando que “está pautado nas evidências científicas, portanto, defende que o retorno presencial aconteça mediante a imunização completa da categoria”.

“Defendemos o retorno das aulas presenciais apenas com vacinação dos profissionais em educação e de uma parcela expressiva da sociedade, com respeito ao ciclo de imunização, ou seja, após aplicação da 2ª dose ou dose única da vacina. Também reivindicamos um retorno planejado e com condições estruturais para que ele se efetive”, destacou a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia, Leonita Simão.