5 de março de 2021

Jennifer Silva – Da Revista Cenarium

MANAUS – A pandemia da Covid-19 provocou até esta quinta-feira, 28, a morte de 940 indígenas e a contaminação de 47.148 integrantes de 161 dos 305 povos originários que vivem no Brasil. A taxa de mortalidade entre a população indígena é de 991 por milhão, 16% superior à mortalidade geral no Brasil pela doença, hoje em 852 por milhão.

O Amazonas foi o primeiro Estado a ter a confirmação de indígenas contaminados e, atualmente, concentra o maior número de mortes entre indígenas. Segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), no total foram 221 mortes no Amazonas, ficando atrás somente do Estado do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com 150 e 104 mortes, respectivamente.

Para o professor de sociologia da Universidade Federal do Estado do Amazonas (Ufam) e coordenador do curso de Licenciatura Indígena Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável, Luiz Fernando de Souza Santos, apesar de a sociedade ameríndia ter desenvolvido anticorpos para múltiplas doenças do mundo ocidental, é importante considerar que a sociedade nacional, em raros intervalos contrários, sempre teve uma relação destrutiva com os povos indígenas. Sob um governo de política reacionária e num contexto de queimada da Amazônia e de avanço do novo coronavírus na região, essa disposição política só se acentuou.

“Por isso, toda forma de resistência política, científica, econômica, que garanta o direito à vida e ao território pelos povos indígenas é necessária. Em tal contexto “tratamento diferenciado” deve significar o compromisso de reparar as dívidas históricas da sociedade nacional com estes povos. E, no caso da vacinação contra a Covid-19, considerar as diversas condições de reprodução da existência indígena é fundamental. Assim, há que se considerar a vacinação dos indígenas aldeados, aqueles com nenhum ou pouco contato, aqueles que estão no interior da Amazônia mas não estão em território demarcado e aqueles que vivem em espaço urbano [em Manaus são aproximadamente 45 mil indígenas de diversas etnias]”, explicou o sociólogo.

Para o professor, uma política séria de vacinação dos povos indígenas deve-se considerar a realidade em que os índios estão inseridos, com a falta de atendimentos essenciais da saúde da família, humanização, integralidade, direito à saúde. “Pelo exposto, considero que a vacinação prioritária dos povos indígenas e quilombolas deve ser observada. Sem isso, o que fica é uma política etnocida”, destacou o profissional.

Contaminação

O primeiro caso de Covid-19 entre os povos indígenas, confirmado em 8 de abril do ano passado, foi o de uma mulher de 20 anos do povo Kokama, na região do Alto Rio Solimões, no Amazonas, que trabalhava como agente indígena de saúde. A infecção ocorreu depois de um médico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde responsável pelo atendimento nas terras indígenas, passar as férias em São Paulo e voltar àquela região em 25 de março para atender os indígenas, segundo o relatório da Apib.

“O profissional estava com Covid-19 e deu início a uma cadeia de contaminação na população local. A doença havia sido caracterizada como pandemia pela OMS em 11 de março de 2020, e menos de dez dias depois, o governo já havia confirmado a transmissão comunitária no País. Hoje, os Kokama são o segundo povo mais atingido pela Covid-19, com 58 mortes e milhares de contaminados. Também foram integrantes da Sesai que levaram o vírus a tribos que praticavam isolamento voluntário e de recente contato no Vale do Javari, no Amazonas, e no Alto Rio Puru, no Acre, segundo a Apib. Na região do Parque Tumucumaqui, na divisa entre o Amapá e o Pará, o vírus chegou aos indígenas locais por meio de equipes do Exército”, afirma a entidade.

Vetor

Segundo a médica Mariana Maleronka, professora da Faculdade de Ciências da Saúde Albert Einstein e consultora do Conselho Nacional dos Direitos Humanos para Saúde Indígena, o plano da Sesai para fazer a contenção da pandemia foi divulgado com atraso e era falho. “Não tinha indicador nem meta, e nenhum tipo de organização que pudesse dar conta do desafio de enfrentar a pandemia de uma população supervulnerável que está em área remota”, afirma. Um dos erros do órgão, segundo a médica, foi usar testes rápidos de sorologia, que indicam se a pessoa já teve a doença, em vez do teste PCR, que mostra quando a pessoa está infectada.

A Apib também se opôs ao envio de missões governamentais a territórios indígenas com o objetivo de fazer relações públicas. Em 30 de junho, uma comitiva com o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e o coordenador da Sesai, Robson Santos Silva, deslocou-se até a Terra Indígena Yanomami, o que “desrespeitou a decisão dos indígenas pelo autoisolamento” e atraiu cerca de 20 jornalistas. A missão entregou 33.000 comprimidos de cloroquina à unidade de saúde dos Yanomami, medicamento sem eficácia comprovada contra a covid-19.

Em alguns povos indígenas, a contaminação se deu por meio de membros dessas comunidades que trabalham em frigoríficos próximos e contraíram a doença de colegas de trabalho. Foi o caso da Terra Indígena Oco’y, no Paraná, da Terra Indígena Xapecó, em Santa Catarina, e na Reserva Indígena de Dourados, no Mato Grosso do Sul.

Grupo prioritário

Após a técnica de enfermagem Vanda Ortega, do etnia Witoto, ser a primeira indígena amazonense a receber a vacinação contra a Covid-19 no Amazonas, a Secretaria de Saúde informou que o imunizante seria distribuído para 265 aldeias indígenas em 16 municípios do Estado.

A distribuição seria feita pelo Distrito Sanitário Especial Indígena de Manaus (Dsei), vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. Lanchas rápidas fariam a logística das equipes e das vacinas para as comunidades, com o apoio de embarcações de grande porte.

Com 30.240 indígenas do Estado, segundo o coordenador do Dsei Manaus, Januário Neto, apenas 15.300 indígenas devem ser vacinados neste primeiro momento, que tem como grupos prioritários os trabalhadores de saúde, idosos de 75 anos ou mais, pessoas com mais de 60 anos que vivem em instituições de longa permanência e a população indígena.