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25 de setembro de 2021
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Bruno Pacheco – Da Cenarium

MANAUS – Randa Kunã Poty Rory, de 24 anos, da etnia Guarani-Kaiowá, é o nome da primeira rapper indígena da etnia Guarani, Ana Lúcia ou Anarandá Guarani, como é conhecida, e significa “mulher flor brilhante, carismática e comunicadora”. A jovem artista, estudante de gestão ambiental na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), conta que decidiu ser cantora para transmitir ao mundo a cultura e a realidade do seu povo por meio da música.

“Decidi ser cantora, porque quero transmitir ao mundo sobre minha cultura, sobre a realidade do meu povo Guarani-Kaiowá”, diz Anarandá Guarani

Natural da Aldeia Guapouy, no município de Amambai (MS), Anarandá mora atualmente em Dourados (a 225 quilômetros da capital Campo Grande), onde também é professora e digital influencer. Por meio das redes sociais, a rapper fala sobre a cultura e a língua materna do povo Guarani. À CENARIUM, a jovem disse que sempre gostou de música, mesmo tendo uma infância difícil por não ter acesso ao rádio ou ao celular.

A indígena conta que a paixão pelo canto a fez escrever canções em Guarani desde pequena. Aos 12 anos, lembra Anarandá, ela teve o primeiro contato com a rádio quando a família adquiriu um aparelho movido à pilha, onde ela costumava ouvir os noticiários da região.

“Eu vim de uma família muito carente e a gente morava bem afastado da cidade. Tudo era mais difícil. Sempre sonhei em ser cantora até me encontrar com a cultura Hip e Hop”, conta a jovem. No princípio, ela pensou em fazer músicas sobre diversos temas até ela se encontrar como artista e falar do empoderamento feminino e o cotidiano da aldeia em que vivia.

Feminicídio

Em março deste ano, Anarandá lançou o primeiro clipe da carreira, chamado de “Feminicídio”, disponível no Youtube. Gravado em Dourado e na aldeia Mororó, o vídeo denuncia a violência contra a mulher e pede um basta para o feminicídio, além de mostrar que o indígena pode estar presente tanto na cidade quanto na aldeia, sendo livre para ocupar o espaço que quiser.

Anarandá, durante o clipe Feminicídio (Reprodução)

“No rapper eu conto uma história real. E para mim, ser rapper é falar da sua cultura e da sua realidade. O rapper é realista, transmite uma reflexão. Por isso eu resolvi ser cantora na cultura Hip e Hop, justamente para trazer a realidade do povo Guarani-Kaiowá, principalmente, das mulheres, porque elas são bem pouco ouvidas na minha comunidade.

De acordo com a rapper, o feminicídio ou a violência contra as mulheres são temas bastante presenciados nas aldeias indígenas. Porém, segundo Anarandá, as mulheres se calam diante das agressões e, quando se pronunciam, não são ouvidas na maioria das vezes. Por isso, veio a ideia para falar sobre o caso.

“Eu busco transmitir sobre o empoderamento feminino, a realidade do meu povo Guarani-Kaiowá, falar da resistência, da cultura e dos nossos direitos. A valorização cultural étnica está sempre nos meus trabalhos, principalmente, a voz das mulheres e também as crianças”, lembrou.

Luta

Anarandá tem o total de três músicas gravadas e 15 músicas que pretende gravar. Ela destaca à CENARIUM que, se tivesse mais apoio e incentivo financeiro, poderia ter muito mais canções gravadas. Mas, como estudante e mulher, ela se vê em meio a desafios diários para continuar na carreira de cantora.

“Por ser artista independente e artista que está entre escolher investir na carreira e ‘pagar boletos’, eu tenho, muitas vezes, que pagar boletos e não tenho condições de gravar. Com muita luta, pela Lei Aldir Blanc, que sou uma das premiadas, pude realizar esse trabalho sobre o feminicípio. Estou muito feliz, pois as pessoas estão ouvindo a voz das mulheres e porque estou sendo a voz do meu povo”, reforçou.

Assista ao clipe de Anarandá: