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22 de outubro de 2021
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Matheus Pereira – Da Revista Cenarium

MANAUS – Com o intuito de discutir como os brasileiros foram afetados pela pandemia de Covid-19 e se conectar com o trabalho e com as reflexões de organizações ambientais e escritores no Reino Unido, a Global Canopy e o Centro de Florestas Tropicais Oxford realizaram, nesta quarta-feira, 19, com a participação de cientistas, ativistas e jornalistas o webinar “Bolsonaro e as crises climática e da Covid-19 no Brasil”. Mediado por Jon Watts, editor de meio ambiente global do jornal britânico The Guardian, o evento ocorreu de forma remota, com interpretação ao vivo para os idiomas Inglês e Português.

No evento, os participantes discutiram temas como políticas e discursos do presidente Jair Bolsonaro e de seus ministros, relacionados ao meio ambiente, às comunidades tradicionais e às ações em meio à pandemia de Covid-19.

A pesquisadora associada ao Instituto de Mudanças Climáticas, Erika Berenguer, apresentou dados que apontam para o aumento de desmatamento, o que influi na emissão de gases do efeito estufa, redução de chuvas, prejuízos econômicos e na possibilidade de novas pandemias. Além disso, a cientista chamou a atenção para os cortes de investimento na ciência e como esse cenário pode ser revertido.

“Como cientista formada pelo sistema educacional público do Brasil, é o meu dever e de todos os cientistas trazer esses dados para a sociedade civil, para podermos reverter esse cenário cinzento que vivemos. E como cidadã brasileira é o meu dever e de todos nós reverter esse cenário de terra arrasada”, destacou.

Erika Berenguer apresentou dados que explicam as mudanças climáticas no Brasil (Reprodução)

Já a coordenadora de políticas e leis do Instituto Socioambiental (ISA) e membro coordenadora do Observatório do Clima, Adriana Ramos, pontuou que, desde seu primeiro mandato parlamentar, durante a campanha para presidente e durante seu mandato, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem instituído políticas que caminham contra projetos de conservação e uso sustentável da floresta.

“Quando olhamos na perspectiva da política socioambiental, é preciso saber que desde que era deputado federal pela primeira vez, o presidente Bolsonaro pauta sua visão sobre a Amazônia em teorias conspiratórias alimentadas principalmente no meio militar, segundo as quais a defesa do meio ambiente, os direitos dos povos indígenas e de outras comunidades tradicionais são fomentados por interesses internacionais contra o desenvolvimento do Brasil”, apontou.

Adriana pediu, ainda, que os representantes da sociedade civil internacional possam ajudar a identificar nos processos multilaterais ou bilaterais que envolvam o Brasil, possibilidades para contribuir com subsídios, interpelar a governos e instâncias internacionais sobre os riscos de apoiar as políticas do atual governo e destacou a importância dos diferentes setores da sociedade para que o Brasil avance nas políticas socioambientais.

“É superimportante que nós busquemos fortalecer os trabalhos das comunidades locais, assegurando que elas sejam diretamente beneficiadas com recursos de forma independente do governo. É muito importante que se reconheça e se valorize que aquilo que se quer na conservação de floresta é aquilo que é feito pelos povos indígenas, comunidades quilombolas e comunidades tradicionais e são esses os modelos que devemos favorecer”.

Povos indígenas

Em sua participação, a líder indígena brasileira e coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Sonia Guajajara, salientou os desafios enfrentados pelas comunidades indígenas, principalmente em tempos de pandemia. Guajajara afirmou que o enfrentamento dos indígenas não é de hoje, mas que se acirra de forma muito mais drástica no atual governo.

“Estes ataques e essa tentativa de calar a boca de quem está lutando em defesa da vida, neste momento o que se apresenta sobre nós são vários vírus que estão totalmente interligados, tiros que vêm de tudo quanto é lado, que vêm para cima de quem luta em defesa dos direitos, em defesa do meio ambiente, que luta contra o desmatamento, que luta contra as queimadas, que luta em defesa dos direitos humanos. Então não é apenas um vírus. São muitos vírus que precisamos combater neste momento. O primeiro deles é acabar como esse vírus que é o próprio governo federal, a própria conjuntura política que só promove todo esse acirramento de conflitos”, apontou a líder.

Sonia Guajajara também participou do evento online para apontar lutas vividas pelas populações indígenas (Reprodução)

População negra e a fome

Além das lutas enfrentadas pelos povos indígenas, também esteve em pauta no webinar, os desafios encontrados por outra minoria do país: a população negra. O fundador da Uneafro Brasil e membro da Coalizão Negra pelos Direitos do Brasil, Douglas Belchior, participou do evento e destacou o momento de agravamento dos direitos humanos no país.

Belchior aponta que a população negra, assim como os povos indígenas são aqueles que sempre tiveram historicamente, a sua condição de humanidade negadas e que as condições que vivem essas minorias não são apenas culpa do vírus em si.

“Nós temos no Brasil como fruto da pandemia, mas não apenas a pobreza e a miséria, que não são culpa do vírus, mas sim de políticas econômicas implementadas por diversos governos que privilegiam os mais ricos. Há políticas ultraliberais de retirada de direitos sociais, econômicos e culturais que afetam a população mais pobre, de maioria negra. A pandemia de Covid-10 radicalizou os problemas que são permanentes na história brasileira”, destacou o ativista e professor de história.

Em sua participação, Belchior apresentou um vídeo da campanha do movimento negro no Brasil “Tem gente com fome”, que arrecada fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de Covid-19 em 2021. O nome e o slogan da campanha, “se tem gente com fome, dá de comer”, são inspirados em uma poesia de um militante negro chamado Solano Trindade.

Homenagem e participação de jornalista

No início do evento, houve uma homenagem ao fotojornalista Lilo Clareto, que morreu em 21 de abril, aos 61 anos, vítima de Covid-19. Lilo era conhecido por trabalhos de denúncia de violações de direitos humanos e crimes ambientais na região amazônica. Foi exibido um vídeo que contou com texto e narração da jornalista, escritora e documentarista, Eliane Brum.

Lilo Clareto recebeu homenagem póstuma no início da programação (Reprodução)

Em sua participação Brum, destacou as crises vividas no Brasil, principalmente em relação aos problemas enfrentados na prevenção e combate à Covid-19. A jornalista apontou para as decisões tomadas pelo presidente da República, como a defesa da chamada imunidade de rebanho, a recusa de vacinas e os gastos e indicações para o uso de medicamentos sem eficácia comprovada e explicou ainda a relação entre as crises agravadas pelas políticas públicas.

“É fundamental deixar claro que não estamos tratando de diferentes mazelas sem conexão entre si. Falar do plano de disseminação do vírus e falar do plano de destruição da Amazônia executado por Bolsonaro é rigorosamente falar do mesmo plano. A atual pandemia, assim como todas as pandemias que virão, estão diretamente associadas à destruição da natureza. Quanto mais a Amazônia for destruída, mais vírus serão liberados, e maior será o risco, a gravidade e a sequência das pandemias”.