Vitória de Boric no Chile representa tendência do avanço da esquerda na América Latina

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS — O Chile se tornou neste domingo, 19, mais um país da América Latina onde um candidato da oposição do governo foi eleito como presidente. A vitória do esquerdista e líder dos protestos estudantis de 2011 no Chile, Gabriel Boric, 35 anos, ao derrotar o ultradireitista José Antonio Kast, é vista por especialistas em política como um indicativo da mobilização contra governos “antipopulares e plutocráticos” que tem ganhado espaço, e eleições, na América Latina.

Boric contou com o apoio de 4,6 milhões de eleitores (55,8% contra 44,1%), se tornando o candidato mais jovem e mais votado da história do Chile. A vitória segue o mesmo caminho do que aconteceu em países como o Peru, neste ano, quando o esquerdista Pedro Castillo venceu a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, e na Bolívia, quando Luis Arce, representante do ‘Movimento Ao Socialismo’, conseguiu derrotar o golpe de Estado do País, em 2020.

O presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, acena a apoiadores durante discurso da vitória em Santiago (Martin Bernetti – 19.dez.2021/AFP)

Para o cientista sociólogo, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Sociologia Marcelo Seráfico, o avanço de governos de esquerdas na América Latina pode ser analisado como uma consequência da maior mobilização da população em prol da retomada das condições de vida da maioria dos cidadãos que sofreram “expressiva deterioração” ao longo dos governos anteriores.

“Qual a origem dessa deterioração? Uma orientação de política econômica comum, ainda que nuances existam, cujo centro é a subordinação absoluta dos aparelhos dos Estados nacionais aos interesses das finanças globais e dos setores econômicos nacionais cuja lucratividade está associada à inserção no mercado mundial”, destaca Seráfico.

“Com isso, destruíram-se políticas trabalhistas, previdenciárias, empresas públicas, políticas de assistência social e de planejamento econômico, deixando a maior parte dos cidadãos entregues à própria sorte. Isto é, temos visto no poder governos anti-populares e plutocráticos, devotados a defender os interesses dos muito ricos à custa da vida das demais camadas da sociedade. No Brasil, verifica-se o mesmo”, pontua ainda o especialista.

Mobilização no Chile

O Chile experimentou, desde 2019, uma insurgência de movimentos político-sociais contra o governo, e tudo começou com um aumento na tarifa do transporte público. Milhares de pessoas, principalmente estudantes, foram chamados e incentivados nas redes sociais pelo movimento #EvasionMasivaTodoElDia (evasão massiva o dia todo) para participar dos protestos.

Eles se organizaram para derrubar os portões das estações, destruir as catracas e passar pelos controles de acesso do metrô. No entanto, o governo contra-atacou invocando e endurecendo a Lei de Segurança de Estado. Isso enfureceu os manifestantes, mas não mudou o comportamento deles.

Imagem de manifestantes com bandeira Mapuche no topo de estátua militar em Santiago, que se tornou símbolo dos protestos no Chile por reformas sociais (Susana Hidalgo/BBC)

A eleição presidenciável de 2021 foi a primeira em 16 anos sem Sebastián Piñera — o atual presidente do País — nem Michelle Bachelet como candidatos a presidente. O primeiro já enfrentava forte rejeição popular e acabou de escapar de um processo de impeachment.

“É importante não esquecer que a derrota das forças antipopulares — sejam elas direitistas ou ultradireitistas, assumidamente neoliberais ou neofascistas — nas urnas é um momento de uma luta maior pela democratização do Estado e do conjunto das relações sociais. Isto é, as eleições são apenas um momento. Que esse momento venha sendo vivido por tantos países, diz muito, sim, sobre a experiência de processos muito semelhantes e de resistência e confrontação”, finaliza o cientista político.

Eleições 2022

A vitória da esquerda no Chile e em outros países da América Latina pode ser um indicativo do que poderá ocorrer no Brasil nas próximas eleições. A última pesquisa Datafolha divulgada sobre o cenário da eleição de 2022 mostra que o esquerdista e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria todos seus adversários num eventual segundo turno se a eleição presidencial do ano que vem fosse hoje. A pesquisa foi realizada de 13 a 16 de dezembro.

O principal rival do petista no primeiro turno é o presidente Jair Bolsonaro (PL). Nesta rodada do Datafolha, ele vence o titular do Planalto por 48% a 22%. Na simulação de segundo turno, Lula bate Bolsonaro por 59% a 30% — dado estável em relação ao aferido na rodada anterior, de 13 a 15 de setembro, quando o placar era 56% a 31%.

Nesse domingo, 19, Lula parabenizou Boric pela vitória no Chile. “Parabenizo o companheiro @gabrielboric por sua eleição para presidente do Chile. Fico feliz por mais uma vitória de um candidato democrata e progressista na nossa América Latina, para a construção de um futuro melhor para todos”, disse o ex-presidente.

Bolsonaro não se manifestou sobre a vitória de Boric, no país vizinho.

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