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17 de maio de 2021

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Com informações do G1

SÃO PAULO – A elevação dos níveis de gás carbônico (CO2) na atmosfera mundial pode causar uma queda anual de 12% no vapor d’água emitido pela floresta amazônica, nos 9 países que compõem o bioma, nas próximas décadas, se não for urgentemente controlada.

É o que apontou um estudo internacional publicado na revista “Biogeosciences” por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Técnica de Munique e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os resultados chamam a atenção para a necessidade de medidas globais e regionais urgentes para conter as emissões de CO2, causadas, sobretudo, pela atividade industrial, transportes e geração de energias não limpas, por exemplo.

Um aumento de 50% nos níveis de gás carbônico (CO2) pode ter um efeito na diminuição das chuvas similar ou até mesmo maior ao da substituição de 100% da mata por pastagens, o que equivaleria ao desmatamento total, e diminuiria a precipitação em 9%, valores muito acima da variação natural de 5% da precipitação amazônica entre um ano e outro, de acordo com os cientistas.

Além disso, com a diminuição da transpiração das árvores, por causa excesso do CO2, a temperatura média pode ter um aumento de até dois graus, uma vez que há menos gotículas de água para amenizar o calor. Esse fator pode iniciar uma cascata de fenômenos que resultam na inibição da formação da chamada convecção profunda (nuvens de chuva muito altas e carregadas de vapor d’água), com efeito contrário: a estiagem.

As simulações foram feitas no supercomputador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, em Cachoeira Paulista, SP. Nos dois cenários projetados, a redução das chuvas seria causada por uma queda de aproximadamente 20% na transpiração das folhas. As razões para essa diminuição, porém, são diferentes em cada uma das situações.

Como as folhas das árvores possuem em sua superfície aberturas microscópicas, chamadas de estômatos, que captam o CO2 para a fotossíntese, esse processo fica prejudicado com o excesso de gás carbônico. É como se, com o excesso de alimento, a planta ficasse em um desequilíbrio que, ao invés de ajudar, só atrapalha. Os estômatos se abrem e captam a quantidade necessária do gás, ao mesmo tempo em que emitem vapor d’água. No cenário com mais dióxido de carbono no ar, as folhas ficam menos tempo com os estômatos abertos. Com isso, emitem menos vapor e diminuem a formação de nuvens e, portanto, de chuvas.

Vista aérea de área desmatada na floresta amazônica. — Foto: Reuters/Ueslei Marcelino
Vista aérea de área desmatada na floresta amazônica (Reprodução/G1)

“Como o CO2 é um insumo básico da fotossíntese, quando ele aumenta na atmosfera há um impacto na fisiologia das plantas, o que pode ter um efeito cascata sobre a transferência de umidade das árvores para a atmosfera [transpiração], formação de chuvas na região, biomassa da floresta e uma série de outros processos”, explica David Montenegro Lapola, professor do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp, que liderou o estudo.

Agora, os pesquisadores querem testar outros modelos computacionais para comparar os resultados simulados. Novos experimentos vão ser feitos pelo projeto AmazonFACE (“Free-Air Carbon Dioxide Enrichment”, na sigla em inglês). Instalado ao norte de Manaus, ele vai aumentar a concentração de gás carbônico em pequenas parcelas de floresta, a fim de verificar as reais mudanças fisiológicas e atmosféricas causadas pelo aumento do dióxido de carbono. “O objetivo é tentar projetar possíveis alterações e, se antecipar, ao cenário climático previsto para este século”, explica o pesquisador da Unicamp.

Créditos de carbono

A pesquisa traz ainda o alerta de que, mesmo que o Brasil encontre parceiros em números suficientes para a compra e venda do chamado “mercado de carbono”, a floresta amazônica poderia simplesmente não dar conta de reter o CO2, por causa do impacto em termos de mudanças climáticas, que já começou a chegar. Tema bastante discutido nos últimos dias, o “carbono brasileiro” foi colocado como essencial para a política ambiental pelo presidente Jair Bolsonaro durante o discurso de quinta-feira, 22, na Cúpula de Líderes sobre o Clima, organizada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a compra e venda do gás – um dos maiores vilões do efeito estufa – mas este assunto desperta debates entre os cientistas.

“Não vai adiantar nada se nós não pararmos a emissão do carbono e o desmatamento, porque não existe atmosfera brasileira, a atmosfera é de todos os países, substâncias que são lançadas em países distantes rapidamente chegam aqui e também impactam as nossas florestas, então, se nós apostarmos em crédito de carbono, mas não tentarmos barrar as mudanças climáticas, não haverá crédito de carbono para vender, porque a floresta vai parar de absorver carbono na atmosfera”, destaca Lapola.