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21 de novembro de 2021
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Com informações do Infoglobo

SÃO PAULO – A transição para uma economia de carbono zero é urgente, mas terá custos “trilionários”, o que pode atrasar a agenda de combate às mudanças climáticas em discussão na COP26, na Escócia.

Estimativas apontam que serão necessários financiamentos anuais de até US$ 5 trilhões para viabilizar projetos para que empresas e governos atinjam as metas de neutralização das emissões de gases do efeito estufa até 2050. Por essa conta, investimentos públicos e privados demandarão créditos da ordem de US$ 150 trilhões em 30 anos, estima a Boston Consulting Group (BCG), parceira da COP26.

Especialistas avaliam que os bancos e o mercado de capitais terão papel fundamental nessa transformação, mas terão de ir além do apoio a causas ambientais. Precisam ter metas ambiciosas de crédito para projetos sustentáveis.

A Aliança Financeira de Glasgow por Emissões Líquidas Zero (GFANZ) da ONU disse na COP26 que instituições financeiras (bancos, gestoras e seguradoras) estão dispostas a direcionar US$ 100 trilhões até 2050 para novas tecnologias e iniciativas que ajudem a cumprir as metas.

No Brasil, ainda há muitos entraves que atrasam o financiamento de projetos sustentáveis e reduzem a oferta de títulos verdes (green bonds) aos investidores, dizem os especialistas. Faltam parâmetros para classificar o que são “investimentos verdes” e regulação para classificar produtos financeiros como sustentáveis.

Fatia pequena no Brasil

Entre os bancos brasileiros, os empréstimos para projetos sustentáveis caíram em 2020, quando a pandemia paralisou diversos investimentos.

De R$ 1,73 trilhão em créditos concedidos a empresas, apenas R$ 376 bilhões foram para operações classificadas como “economia verde”, de acordo com critérios da Federação Brasileiras dos Bancos (Febraban), revisados no ano passado. O valor é 21,75% do total emprestado, patamar semelhante ao de 2019: 22,48%.

“A revisão da metodologia é importante para os bancos direcionarem capital para as atividades com maior contribuição socioambiental, formular estratégias para gerir riscos associados às mudanças climáticas e identificar novas oportunidades de negócios”, diz Isaac Sidney, presidente da Febraban.

Glenda Rangel, especialista em descarbonização da consultoria Ramboll do Brasil, diz que há muito a fazer no País:

“Os bancos brasileiros vêm aumentando as linhas de crédito a esses projetos, e no mercado de capitais já há mais demanda que oferta pelos chamados green bonds. Mas é preciso reduzir o custo e simplificar as operações para que esses papéis sejam viáveis para serem emitidos por empreendedores menores, por exemplo”, explicou.

De acordo com a Climate Bonds Initiative (CBI), organização internacional que promove investimentos contra as mudanças climáticas, os títulos verdes, que são instrumentos usados para levantar dinheiro para projetos sustentáveis, movimentaram pouco mais de US$ 2,5 bilhões no Brasil em 2020 e cerca de US$ 2 bilhões este ano, fatia pequena do movimento global.

No mundo, a emissão desses títulos alcançou a marca recorde de US$ 700 bilhões em 2020.

Do ponto de vista do investidor que deseja aplicar seu dinheiro em fundos de investimento “sustentáveis” ainda não há uma regulação que estabeleça critérios.

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) elaborou regras para classificar Fundos de Investimentos Sustentáveis (IS). Os que atualmente estão no mercado com o selo IS terão doze meses para se adequar. E novos poderão se registrar a partir de janeiro.

“A padronização é importante já que por meio dela os investidores poderão compreender o que realmente torna um investimento sustentável”, afirma Beatriz Cloud, advogada do BVA Advogados.

US$ 1,5 tri de um só banco

Entre as maiores instituições financeiras do mundo, o Bank of America (BofA) chamou a atenção recentemente com a meta de financiar até US$ 1,5 trilhão até 2030 em projetos de moradias acessíveis, saúde, educação, inclusão financeira, e energia renovável rumo à economia verde.

Nesse cardápio estão start-ups e tecnologias emergentes como célula de combustível e sequestro de carbono. O banco americano, entretanto, estima que serão necessários globalmente algo entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões por ano para viabilizar a economia de carbono zero.

“A transição exigirá recursos financeiros que muitos países não possuem, tornando necessária a colaboração internacional. A combinação entre os setores financeiro e público para financiar as mudanças terá papel-chave”, disse Luiz Awazu Pereira, diretor-geral adjunto do Banco de Compensações Internacionais (BIS), espécie de banco central dos bancos centrais, em um seminário recente do BC do Brasil.