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25 de setembro de 2021
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Bruno Pacheco e Luís Henrique Oliveira – Da Revista Cenarium

MANAUS – Indígena, fotógrafa, escritora, atriz, cantora, compositora, poeta, palestrante, professora mestre em Geografia e, agora, a primeira ouvidora da história da Prefeitura de Belém, no Pará. Essa é a amazonense Márcia Wayna Kambeba, que tomou posse do cargo neste sábado, 2, em cerimônia realizada no Hotel Sagres, na Zona Centro-Sul da capital paraense.

Em entrevista exclusiva à REVISTA CENARIUM, a professora falou sobre sua história de vida, a relação de amizade e confiança com o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (Psol), e a responsabilidade de representar os povos indígenas em um cargo de primeiro escalão.

Em 2020, Márcia Kambeba foi convidada pelo Psol para representar os povos indígenas como candidata pelo partido. Recentemente, recebeu o convite para ser Ouvidora Geral do município de Belém na gestão do novo prefeito Edmilson Rodrigues.

Com sangue originário das etnias Omágua/Kambeba, Kokama e Witoto, segundo a avó Assunta Kambeba contava para Márcia, ainda menina, a primeira mulher ouvidora de Belém é natural do Amazonas, onde nasceu na aldeia Tikuna, chamada como Belém do Solimões, no Alto Solimões.

REVISTA CENARIUM: Quem Márcia Kambeba?

Márcia Kambeba: Márcia Kambeba é indígena e corre em suas veias o sangue de alguns povos como: povo Omágua/Kambeba, Kokama e Witoto segundo a avó/mãe Assunta me contava ainda menina. Sou natural do Estado do Amazonas e tive a honra de nascer na Aldeia Tikuna, chamada Belém do Solimões, no Alto Solimões, no Amazonas.

Aos 9 anos, nos mudamos para o município de São Paulo de Olivença, onde estudei o ensino fundamental e médio. Me graduei em Geografia pela UEA (Universidade do Estado do Amazonas) de Tabatinga e fiz Mestrado em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus, concluindo em 2012.

Em Manaus, tive atuação artística literária junto ao Clube Literário do Amazonas, o CLAM. Em 2011, já casada e com família, me mudei para o Estado do Pará onde estou residindo até hoje. Em Belém, tenho atuado no meio literário, artístico musical, fotográfico.

Márcia Kambeba é poeta, compositora, escritora de assuntos indígenas e ambientais, amazônicos, fotógrafa com ênfase nos povos indígenas e ambiental, contadora de histórias num trabalho autoral e performático, cantora, atriz, palestrante de assuntos indígena com atuação no Brasil e exterior e professora convidada da UEPA (Universidade do Estado do Pará) com licenciatura Intercultural Indígena.

Em 2020, foi convidada pelo Psol para representar a candidatura indígena lançando-se candidata pelo partido. E, atualmente, recebeu o convite para ser Ouvidora Geral do município de Belém na gestão do prefeito eleito Edmilson Rodrigues.

Márcia Kambeba tem três livros lançados chamados: Ay Kakyri Tama (Eu moro na cidade); “O lugar do Saber”; e, mais recente lançado esse ano, “Saberes da Floresta”. Em 2021, lança mais um livro chamado “Kumiça – Jenó: narrativas poéticas dos seres da floresta”, pela Editora nos EUA (Estados Unidos), chamada Underline Publishing. E lança seu CD de músicas e poemas autorias em parceria com o músico Robertinho Silva conhecido por ser o pai da bateria no Brasil e fez parte da banda de Milton Nascimento entre outros nomes da MPB.

Tive atuações culturais e com palestras no Chile e Londres. Trabalhei com o Sesc Nacional no projeto Arte da Palavra. Ganhei o prêmio Internacional de Literatura Brasileira nos EUA e entrei para a Academia Internacional de Literatura Brasileira, a primeira indígena da Amazônia a ganhar e entrar para essa academia.

Em Belém, recebi a Comenda Paulo Frota de Direitos Humanos por atuações com os povos indígenas junto os direitos humanos, recebi em Castanhal, município onde moro, a Comenda Seu Duca de mérito cultural e a Comenda Mulher Nota Mil pela Câmara Municipal de Castanhal. Em 2018, representei a literatura Amazônica no programa Encontro com Fátima Bernardes na Globo.

RC: Qual sua especialização?

Márcia Kambeba: Estudei Geografia, com mestrado na área, trabalho com educação indígena como professora convidada da UEPA e muito com oficinas e palestras pela prefeitura de São Paulo no Estado de SP, bem como com atuações com Sesc pelo Brasil com oficinas e formações para professores relacionado a Educação indígena e ao uso da literatura indígena nas escolas como material didático unido a música.

RC: Que postura Márcia Kambeba irá tomar enquanto primeira ouvidora indígena na Prefeitura de Belém?

Márcia Kambeba: Uma postura integracionista recebendo as demandas dos cidadãos, dando voz a seus anseios, sendo atenta aos grupos minoritários e excluídos e, o mais importante, garantindo efetividade na resposta aos cidadãos, pelo acompanhamento da resolução das demandas.

Buscando representar e dar visibilidade as demandas trazidas pelos povos indígenas que vivem na cidade de Belém e que são, ao todo, aproximadamente sete mil e que estão residindo nas periferias da capital. Quais seus anseios? Suas lutas? Estarei junto somando as forças para fazermos juntos com o prefeito eleito Edmilson Rodrigues uma Belém do povo e para o povo com foco no bem viver.

A Ouvidoria Geral do Município de Belém deve ser compreendida como uma instituição que auxilia o cidadão em suas relações com o município. A Ouvidoria representa a prefeitura quando está falando com o cidadão e representa o cidadão quando repassa o assunto ao Governo Municipal.

As informações reunidas pela Ouvidoria são encaminhadas aos orgãos/secretarias competentes, para que estes conheçam a realidade dos serviços públicos prestados por eles, buscando garantir o seu direito de falar com a prefeitura e de receber resposta.

RC: RC: Qual a importância de indígenas em cargos públicos e do alto escalão?

Márcia Kambeba: Durante anos nós, povos indígenas, fomos e ainda somos marginalizados, ou seja, colocados à margem no sentido de ocupar cargos e funções que representam as diretrizes de uma nação, Estado e cidade. Somos tutelados, todos como entrave para o progresso, etc. Mas temos altos conhecimentos. Pensamos uma política diferente para além de partidária. Foi assim que conseguimos resistir desde a invasão de nossas terras. Descobrimos o látex, e tantas outras coisas e não nos deram o devido valor e patente. Mas continuamos a ecoar nossa cultura.

Somos lembrados só no 19 de abril como “dia do índio”. Sendo que não somos índios, somos povo originário, temos identidade, memória, cultura e somos parte integrante da história do Brasil. Todas as capitais na Amazônia estão em terras indígenas. Belém não seria diferente. Antes de ser Belém ela se chamou Mairí Tupinambá. E foi pensando numa Belém Mairí do Bem Viver que quis disputar essa eleição. É preciso se sentir Amazônida e se sentir Amazônida é reconhecer que em nossos ser corre sangue de muitos povos.

O prefeito Edmilson Rodrigues sabe e sente isso pulsante em seu ser. Digo e afirmo isso porque o conheço e somos amigos, sei da atuação dele junto a nós povos indígenas e de modo particular os aqui do PA. Ele não está longe de nós e sim com a gente. Dança e canta nossa luta. Creio que isso foi um fator importante pra ele fazer o convite a mim.

Sem dúvida é uma conquista sem precedentes, pois, historicamente, os povos originários até hoje ainda não tinham essa oportunidade, tanto no que se refere a participarem de igual competência em campanhas políticas, como também ocupando cargos públicos. E sem dúvida será uma oportunidade única para o povo brasileiro sobre tudo no sentido de que vamos poder mostrar nossa cultura e ancestralidade e fará a diferença no âmbito da administração pública no contexto urbano.

Nós, indígenas, somos considerados um grupo minoritário e como tal não possuímos representatividade de fato na política e em cargos públicos, contudo esta realidade já vem mudando, tanto que temos hoje uma indígena Kambeba como Ouvidoria do Município de Belém.

A participação dos indígenas na política e em cargos públicos é algo que somente trará benefícios a toda a população, pous nenhum direito será retirado e sim, apenas, acrescentado.

RC: Qual sua relação com o prefeito Edmilson e como é receber um convite para ser ouvidora?

Márcia Kambeba: Minha relação com o prefeito é de muito carinho e amizade. Respeito acima de tudo pelo líder político que ele é, pelo artista que ele é, pois ele é da música também. Pelo ser humano que Edmilson Rodrigues é. Uma pessoa do povo, que não nega um olhar, sabe ouvir e articular, criar estratégias e tem um carinho pelos povos indígenas.

Esse ponto de modo particular quero enfatizar, pois aqui no Pará, quando cheguei, via ele sempre junto aos povos indígenas em encontros. E como ele é querido pelos Tembé, Suruí, Assurini, Wai Wai entre outros. Cito esses pois são os que mais tenho contato como professora em área.
Edmilson Rodrigues sabe de nossa luta, de nossas aflições, de nossas dores. Esse Covid nos trouxe grandes perdas e ainda estamos nos recuperando desse trágico acontecido entre as nações.

Entrar para o seu grupo de trabalho, receber esse cargo me dá alegria e aumenta a responsabilidade frente aos povos indígenas daqui no Pará. Agradeço não só a confiança do prefeito Edmilson mas agradeço a confiança dos povos indígenas do PA com quem tenho trabalhado e lutado junto.

Não diferente, também atuo em lutas e ajudando como posso os indígenas do nosso amado Amazonas, principalmente, nesse período de pandemia, fazendo articulações junto a doadores fora do Brasil, ajudando não só os povos da nossa Amazônia como também de outros Estado no Brasil. Essa é minha atuação como liderança indígena, pensar não só algo que venha ajudar os daqui mais os de outros estados, porque a luta e a dor é a mesma aqui e em todo lugar.

Que essa ação do prefeito Edmilson Rodrigues em trazer a voz dos povos originários para sua gestão e dar esse espaço de atuação em termos de contribuição com a cidade seja, também, vista por outros prefeitos em muitas outras cidades na Amazônia onde a presença indígena é marcante.

De nosso conhecimento não se tem registro de nenhuma administração que teve em seu primeiro escalão um indígena atuando na gestão. E sou grata por ter recebido essa dádiva. Portanto, minha relação com o prefeito é uma relação de confiança, pois acreditamos nos mesmos ideias e lutas.

RC: Que dificuldades você encontrou ao longo desse caminho em sua vida profissional e de educação?

Márcia Kambeba: Com relação as dificuldades enfrentadas, no decorrer da minha vida profissional, na educação, vou falar aqui com relação ao meu lado escritora. Como escritora, eu enfrento a dificuldade de ter o material publicado. Porque a gente escreve, a gente compõe, a gente faz as coisas acontecerem, mas a gente não tem aquele espaço devido. As editoras ainda não nos dão o devido espaço para nossa voz ecoar. Fico grata quando uma editora parece que que aceita divulgar o meu material.

Batemos em muitas portas e poucas vezes, elas se abrem. Essa é uma dificuldade que a gente enfrenta e continuo enfrentando. Não é porque eu estou atuando em algumas editoras no Brasil e fora que eu não enfrento dificuldades. Na educação, a gente se forma, faz mestrado, doutorado, graduação, mas a gente não tem oportunidade de trabalho. Por exemplo, eu terminei a minha em 2012 e estou buscando o doutorado.

Quero tentar o doutorado, e de preferência, eu queria pelo Pará. Queria voltar também ao Amazonas, mas voltar o Amazonas tá um pouco difícil para mim hoje. A gente se forma doutor, mestre, mas as universidades ainda não nos nos enxergam, não dão essa visibilidade necessária que a gente precisa. Na educação, essa é uma das dificuldades e eu agradeço muito quando uma universidade me convida para atuar como educadora. É preciso que os governantes vejam isso, é preciso que os os prefeito, os governadores de Estado visibilizem e valorizem os povos indígenas.