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26 de janeiro de 2022
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS- “Gabriel estava catando lixo desde as 7h e aí, no meio da sujeira, encontrou essa árvore de Natal e ficou muito feliz. Ele mostrou para a mãe dele, Dona Maria, e fez os planos de ajeitar para dezembro e colocar na sala de casa. Guardou dentro de uma caixa a árvore, voltou para procurar comida. Fiquei muito feliz por ele. Parei de fotografar, na hora”, este é o relato do fotógrafo João Paulo Guimarães, ao testemunhar os “minutos de felicidade” de um menino de 12 anos, em Pinheiro, no Maranhão, ao achar uma velha árvore de Natal descartada no lixão da cidade. A foto se espalhou rapidamente pelas redes sociais com milhares de comentários, compartilhamentos e curtidas.

João Paulo, que foi ao local com o intuito de documentar imagens daquele cotidiano, passou três dias fotografando a lixeira a céu aberto. “Eu consegui pegar esse momento porque fui para lá justamente para isso, e, logo depois das fotos, foi realizada uma audiência pública na cidade tendo como pauta o local”, conta o fotógrafo.

Com 13 anos de profissão, e há pouco mais de quatro anos se dedicando à fotografia documental, o profissional, de 42 anos, nascido em Abaetetuba no Pará, mesmo acostumado a registrar fatos marcantes não segurou a emoção ao presenciar a cena que, inclusive, considerou uma das mais tocantes da carreira. “Embora tenha sido um achado para o menino, o sentimento, para mim, foi, por um momento, de alegria e de tristeza profunda. Quando eu vi aquilo, eu desabei porque, na verdade, nada te prepara para essas coisas”, destaca o fotógrafo.

Gabriel costuma ir ao lixão com a mãe. (João Paulo Guimarães/ Instagram)

Repercussão

Embora soubesse que as fotos causariam comoção, o profissional diz que não esperava uma repercussão tão rápida nas mídias. “As imagens são fortes, eu esperava que repercutissem, mas não dessa forma. Hoje em dia, tudo acontece muito rápido. O Instagram ainda tem essa questão do algoritmo e também tem a questão das pessoas admirarem a foto e do momento da contemplação para chegar na indiferença é muito rápido”, ressalta.

Para o profissional, a foto, tirada no início de novembro, se resume a uma palavra: “resistência”. “Eu só consigo pensar nisso, resistência”, pontua João sobre o retrato da dura realidade e desigualdade vivenciada pelas crianças que vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil.

“Agora, vou ver quanto é uma árvore de Natal por aqui por Pinheiro. Ou eu compro comida pro Gabriel? Difícil decidir entre a infância e a sobrevivência”, questiona o fotógrafo documental que revela ter lido diversos comentários de carinho para Gabriel, logo após a postagem na rede social. “Sorrimos juntos, ele se sentiu abraçado, gostou das mensagens”, disse Guimarães.

Missão

João Paulo ressalta que, muito além de conseguir boas fotos, vê no trabalho uma possibilidade de atuar em prol de causas sociais. A câmera fotográfica e o olhar voltado ao próximo funcionam como ferramentas para disseminar um pedido de cuidado e atenção das autoridades.

“O trabalho que eu faço é esse, é ajudar a repercutir locais, situações e pessoas que precisem de determinado auxílio, iniciativa. É um modo de auxiliar e chamar atenção para alguma política pública que atenda àqueles que precisam. Faz parte da minha missão. É uma das formas que encontro de contribuir por meio da profissão”, revela.

“Eu só consigo pensar em resistência”, diz o fotógrafo sobre o registro. (João Paulo Guimarães/ Instagram)

Trabalhos

Dentre os trabalhos realizados por João Paulo Guimarães está a cobertura da Queimada na Chapada dos Veadeiros, que destruiu o segundo maior bioma da América do Sul. Localizada no Parque Nacional em Goiás, a 246 quilômetros de Brasília.

De 28 de setembro deste ano a 3 de outubro, o profissional acompanhou, pela CENARIUM, a rotina das brigadas de incêndio e pôde verificar in loco a batalha diária dos brigadistas quilombolas contra o fogo que se alastrava na região.

“Acho que, fora o Covid e os enterros no auge da pandemia, a queimada na Chapada dos Veadeiros foi uma experiência muito marcante que fiz, inclusive, para a CENARIUM. Vê como a Brigada Kalunga trabalha e arrisca a vida, vê os animais morrendo e alguns já mortos é algo forte também”, relembra o fotógrafo.

João Paulo Guimarães, 13 anos de vida como fotógrafo profissional. (Foto: Publicação no Instagram)