2 de março de 2021

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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – O Sistema de Alerta de Desmatamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) indicou no início deste mês que os estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso lideraram os índices de desmatamento em 2020. Ainda segundo o instituto, 2020 bateu o recorde de desmatamento dos últimos 10 anos.

De acordo com o Imazon, o desmatamento na Amazônia cresceu 30% no ano passado. Entre janeiro e dezembro de 2020, a floresta perdeu 8.058 km² de área verde. Em comparação com 2019, foram derrubados 6.200 km² de floresta. Só em dezembro de 2020, os satélites registraram 276 km² de devastação, o que também significa recorde para a década.

Segundo o doutor André Luiz Mendonça, professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o desmatamento tem relação direta com a situação econômica do País e é estimulado por atividades que sejam lucrativas. Por isso, o recorde de desmatamento em 2020 pode estar relacionado com o desestímulo industrial causado pela pandemia da Covid-19.

“Por causa da pandemia, temos várias situações como a maior necessidade de atividades econômicas primárias e também menos fiscalização nas áreas de floresta. As pessoas estão indo atrás de novas atividades e formas de ganhar dinheiro na agricultura e pecuária”, afirmou André Luiz.

Ranking

No ranking dos estados que mais desmataram a Amazônia no ano passado, o Pará aparece em primeiro lugar, com 42% de todo o desmatamento registrado em doze meses. Em seguida vem Amazonas (17,2%), Mato Grosso (13,4%), Rondônia (12,9%), Acre (8.5%), Maranhão (2,9%), Roraima (2,5%) e, por último, Amapá (0,3%) e Tocantins (0,3%).

Ranking mostra dados do desmatamento na Amazônia (Arte: Guilherme Oliveira/ Revista Cenarium)

Ainda segundo André Luiz, o Amazonas não sofria tanto com o desmatamento devido à ocupação populacional mais tardia e maiores entraves geográficos causados pelo excesso de unidades de conservação. “Com o tempo começa a acontecer uma pressão dos estados que estão na fronteira com o Amazonas, como o Pará e o Mato Grosso, para a abertura de mais estradas e escoamento da produção desses locais que têm produção agrícola e pecuária mais intensa”, lembrou ainda André Luiz.

Entre os municípios no país, seis dos dez que mais foram alvos do desmatamento entre janeiro e dezembro de 2020 estão localizados no estado do Pará. Altamira (575 km²) e São Félix do Xingu (447 km²) lideram a lista.

Entre as unidades de conservação, a Florex Rio Preto-Jacundá, em Rondônia, foi a mais desmatada no ano passado, com 321 km² de área verde derrubada. A terra indígena Apyterewa, no Pará, foi a terra indígena com mais alertas de desmatamento detectados pelo sistema de monitoramento do Imazon, com 82 km² de área total desmatada.

Ipês são os mais cobiçados

Em parceria com o Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal (PF) apreendeu em dezembro de 2020 mais de 130 mil metros cúbicos de madeira retirada da floresta de forma ilegal. As mais de 43.700 toras foram desmatadas do Pará ao longo dos rios Mamuru e Arapiuns, em uma região que faz fronteira com o Amazonas, próximo de Parintins (a 369 quilômetros de Manaus).

O ambientalista Carlos Durigan explicou que a extração ilegal de madeira é feita sem nenhuma boa prática de manejo, o que leva a produzir grandes impactos, seja sobre as espécies exploradas e cortadas, assim como em toda a área onde ocorrem, com a abertura irregular de ramais e picadas para acesso às áreas e extração.

O que chamou a atenção do MPF foi a quantidade de árvores da espécie ipê apreendida na operação. A espécie é a mais explorada da região amazônica, de acordo com dados consolidados da Operação Arquimedes. “Ao contrário do que o atual governo federal vem fazendo, é preciso fortalecer os órgãos de controle e sua atuação, além disso, trabalhar pelo fortalecimento das iniciativas de manejo sustentável da floresta. Há muitas experiências na Amazônia voltadas ao uso sustentável de recursos naturais promovidas por universidades, instituições de pesquisa, empresas, comunidades e ONGs”, destacou o ambientalista em recente entrevista à REVISTA CENARIUM.

A árvore do ipê é alta, bem copada e, no período da floração, apresenta uma peculiaridade: fica totalmente desprovida de folhas e é a espécie mais contrabandeada pelo mercado ilegal de madeira que atua na Amazônia.