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20 de outubro de 2021
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Neiza Teixeira – Especial para Revista Cenarium

A história funciona como um crivo, considerando que ela tem o tempo e o espaço como seus fundamentos, e que, por exemplo, o tempo promove o distanciamento essencial para que as coisas se consolidem, tornando-se necessárias à permanência. Isso significa que ela, com o seu trabalho dinâmico e constante, se encarrega de “lapidar” o pensamento ou a obra seminal, para o prosseguimento do homem na Terra.

Para que o tempo cumpra a sua função, emergem, de todos os lugares do planeta, vozes que se alteiam e que se fazem ouvir acima das demais. São homens porta-vozes que pronunciam palavras inaugurais, ainda não ouvidas ou ainda não ouvidas de determinada maneira; são também homens que emergem pintando quadros ou construindo objetos que escavam o que somos e o que fazemos; homens que emergem construindo conceitos, para dar vida ao que se bate no invólucro, nosso e do mundo, porque se encontra encoberto pela não revelação; homens que emergem proferindo palavras curandeiras, exalando o bem na fumaça dos seus cigarros ou cachimbos místicos; homens que emergem transformando a paisagem e encurtando as distâncias que tornam o mundo tão pequeno, ao alcance das nossas mãos. E outros homens que emergem para contar histórias, tecer enormes biografias desses que foram escolhidos ou que, por um capricho ou necessidade da natureza, desenvolveram inteligências e vontades superiores.

Aos narradores de histórias e de biografias, cabe levar esses homens singulares para a cotidianidade daqueles que laboram para que o que é visível ou “bruto” nos sustente com segurança. Como seria bom se eles chegassem ao maior número possível de pessoas! Certamente, teríamos um mundo melhor, no qual seríamos mais irmãos e mais belos.

É nessa função que celebro a vida e a voz do belo Thiago de Mello, o poeta que não é somente das Amazônias, mas um dos que altearam de tal forma uma voz amazônica, que, por conta desse evento, ela faz a sua caminhada a todos os recantos do planeta. O poeta universalizou-se, tornou-se essencial; fez da sua voz a de todos os homens em tempos e lugares. Ele se fez notar pelo seu canto em favor da liberdade, da vida, emprestou a sua voz, conforme Deleuze, para que os mais vulneráveis fossem ouvidos, estabeleu-se na fronteira entre o homem e o animal e, por isso, pôde se relacionar ou ouvir o cosmo, algo que se pode afirmar de um poeta:

Faz escuro mas eu canto,

porque a manhã vai chegar.

Vem ver comigo, companheiro,

a cor do mundo mudar.

Vale a pena não dormir para esperar

a cor do mundo mudar.

O poeta canta o seu tempo e o seu espaço. Mas, não o canta para limitá-lo, e, sim, para expandi-lo, enchendo-o de ternura e de esperança. Thiago de Mello é um poeta do canto doce, da palavra que escorre feito mel. Ouçamos as palavras do Artigo X, de Os estatutos do homem:

Fica permitido a qualquer pessoa,

a qualquer hora da vida,

o uso do traje branco.

O branco tornou-se o seu traje. Com essa indumentária, a sua imagem aproxima-se da dos profetas, dos visionários, daqueles que olham por sobre as planícies e os montes; que sobem as montanhas, que se acompanham de vidas invisíveis – as Palavras. Como todos os homens, Thiago de Mello tem as suas limitações; faz as suas visitações aos confins do Inferno, onde se humaniza e se aproxima de qualquer um de nós. Quem não reclama dos seus repentes desconcertantes? Quantas histórias correm pelas esquinas, dos lugares por onde passou, em vários países, nos períodos de exílio ou quando visitava os amigos, que ele adora relembrar!

Como tantos outros poetas, aqui relembro o bardo francês Charles Baudelaire, para dizer que a Poesia significou a vida do poeta das Amazônias:

EMBEBEDAI-VOS. É preciso estar-se, sempre, bêbado. Tudo está lá, eis a única questão. Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.

E se, às vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a grama verde de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão:

– É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embebedai-vos, embebedai-vos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa.

Inspirados pelo nosso poeta, embebedemo-nos de Poesia, e, pelo menos, tenhamos a ideia de onde ela reside:

Precisosa terra existe

rondada por altos muros

onde só penetraremos

por senda única, estreita,

de palavras construídas.

No dia do aniversário de 95 anos de Thiago de Mello, neste ano de 2021, reunamo-nos em torno do fogo eterno da poesia, e recitemos as Palavras Aladas que nos rondam desde sempre.

A autora

Amazonense de Parintins, Neiza Teixeira fez graduação em Filosofia em Porto, Portugal. Atualmente, é coordenadora editorial da Editora Valer

Neiza Teixeira é amazonense, nascida na cidade de Parintins, no ano de 1961. Fez a escolaridade básica naquela cidade. Em Manaus, graduou-se em Filosofia; na cidade do Porto/Portugal, fez mestrado e doutorado na mesma área. Tem artigos publicados em Portugal, Espanha, Alemanha e Brasil. É autora do livro Para aquém ou para além de nós: uma contribuição do pensamento “primitivo” ou “bárbaro” para o pensar do futuro. Atualmente, é coordenadora editorial da Editora Valer.

Edição: Alessandra Leite