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29 de janeiro de 2022
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João Paulo Guimarães – Da Revista Cenarium*

PANTANAL, MT – Quando entrei em contato com a REVISTA CENARIUM, para falar sobre minha segunda ida ao Pantanal, eu já sabia que queria fotografar e descrever sobre a experiência desse retorno a este ecótono em processo de devastação. Eu só não sabia como iria escrever. Qual seria o tom da escrita? Não sou jornalista e também não sou poeta.

Lembrei que sou fotógrafo e que escrevo com a luz. É mais fácil que escrever com a pena e mais forte também. Só que para essa expedição eu usaria a luz, que seria meu objeto e assunto de pauta. Eu usaria a luz do fogo para escrever.

(João Paulo Guimarães/Revista Cenarium)

As coisas que eu vi, as pessoas que eu conheci e os medos que eu senti soariam falsos aqui se tentasse caracterizar. Mesmo por meio do relato preciso e da narrativa dramática ou tentando descrever de forma direta e sem rodeios. Nada funcionaria.

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E é nesse momento que eu percebo que é impossível sensibilizar tanta gente que espera outra foto de uma Jaguatirica morta, como a que eu fotografei na primeira visita ao Mato Grosso. Não há como fotografar a dimensão desses horrores sem os outros sentidos e seus cheiros contextuais.

Sentidos

A fumaça que impregna na roupa, no equipamento, no nariz e nos olhos. As carcaças de animais mortos à beira da estrada que fedem e fritam. Animais gigantes como a anta ou ainda os inúmeros tamanduás-bandeira que fogem do fogo ateado à beira das rodovias e são pegos por carros em alta velocidade.

O calor de 47° graus dia e noite, que cobre o corpo como uma manta pesada e que enfraquece a vontade da gente. Todos esses fatores descritos aqui, a fotografia ainda não pode levar até você, a audiência. Mas e se pudesse? Quem ousaria ver e sentir? Já é difícil para o fotógrafo e como é difícil tudo isso.

(João Paulo Guimarães/Revista Cenarium)

Como explicar para a sua família que você está indo atrás de uma coluna de fumaça no meio de um local que você não tem ideia de como vai ter acesso? Tente explicar isso sem parecer maluco.

Você vê a fumaça, vê os focos de incêndio a quilômetros de distância e se sente impotente, perdido e triste por não conseguir chegar até lá e trazer para a audiência aquelas histórias que o fogo cria enquanto queima.

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Despertar reações

Mas como essas histórias poderiam sensibilizar um público que não reage a cinco milhões de mortos por uma pandemia chamada de “Gripezinha”? A morte do brigadista do ICMBio que teve 80% de seu corpo queimado em Goiás não comoveu.

A morte do estudante de zootecnia que teve seu corpo carbonizado em Cáceres também não. Talvez a morte de uma criança queimada pelo fogo no Mato Grosso do Sul? Não comove, nem virou notícia.

(João Paulo Guimarães/Revista Cenarium)

Os animais sensibilizam mais, com seus corpos retorcidos pelo fogo e secos pela asfixia da fumaça. Eu o fotografo, a hiena midiática, preciso de outra Jaguatirica para fotografar antes que o assunto Pantanal fique ultrapassado.

Talvez a foto da família passeando na praia enquanto o fogo consome a mata ao lado? Será que comove? Ou aquela imagem poética do fogo ao longe com a imagem de São Francisco e o bombeiro em primeiro plano será que choca? O fogo já não choca e em uma situação de queimada, fogo é clichê. Chover no molhado, se tem queimada, tem fogo, esquece o fogo.

(João Paulo Guimarães/Revista Cenarium)

Despedidas

Os dias vão passando e eu vou aos poucos me despedindo dos lugares e pessoas lindas que conheci, mas que não posso identificar por segurança. Primeiro me despeço da miséria de Poconé, arrasada pelo garimpo. Depois do centro de comando de Porto Cercado, onde toda a operação Pantanal acontece.

E, por fim, me despeço das belezas da cidade de Cáceres, escondida pela fumaça e pelo fogo. Muito triste a despedida, o Pantanal era bonito, exuberante, misterioso e colorido. As más línguas federais dirão que ainda o é, mas as línguas são genocidas, matam também a mãe Amazônia.

Cenarium no Pantanal – ‘Em chegada a Cáceres, fumaça e ‘fogo criminoso’

(João Paulo Guimarães/Revista Cenarium)

A Mãe Bioma do filho ecótono. A morte é pop, o agro queima. Me despeço cansado, com o corpo dolorido, fedendo à fumaça, com a câmera suja de poeira da estrada e cinzas, além da forte sensação de que erramos muito. Hipócritas, fingimos nos importar, mas alegamos que a vida tem que continuar e não nos envolvemos.

Me despeço do Projeto Paeas, que resgata a vida em fuga da Transpantaneira consumida. Dou adeus aos Amigos do Pantanal que entregam alimentos em áreas de seca abaladas pelas chamas e sem água.

Me despeço de um Pantanal que não tive a oportunidade de conhecer, porque os 14% que conheci e fotografei estavam queimados. Talvez daqui a 50 anos quem sabe, quando o ecótono conseguir sarar. Quem poderá dizer não é? Eu volto para casa, porque preciso descansar. Mas o fogo fica. E o fogo não descansa.

(*) Correspondente especial