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26 de janeiro de 2022
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Náferson Cruz – Para a Revista Cenarium

AUTAZES (AM) – Vindos das mais variadas atividades econômicas, muitos do roçado e desempregados, garimpeiros da Amazônia carregam consigo as cicatrizes de uma labuta bucólica e desumana do homem com a natureza. Após quatro décadas do fechamento dos garimpos, a CENARIUM foi buscar, na memória desses garimpeiros, suas histórias de vida, seus “bamburros” (quando encontram grande quantidade de ouro), esperanças e desilusões, suas formas de organizações alternativas nas ausências do Estado e suas estratégias de luta e de sobrevivência.

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Muitos já estão velhos e outros jovens, mas trazem a memória de suas experiências, como o ex-comerciante, Sadir da Costa Oliveira, de 38 anos, natural de Manicoré, que passa meses longe do aconchego do lar. O ex-comerciante conta que iniciou sua jornada como garimpeiro aos 26 anos, mas, antes, atuava vendendo produtos industrializados pelos beiradões da Amazônia.

Garimpeiro ajusta equipamento para encontrar ouro no Rio Madeira. (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)

Mesmo que o meio ambiente seja altamente impactado com o trabalho dos garimpeiros, muitos citam que esta é a única forma de sustento na região. “Vi no garimpo uma forma de garantir a renda para minha família. Naquela época, as coisas estavam difíceis e, durante todo esse tempo que estou nessa atividade, melhorou bastante”, lembrou o garimpeiro, enquanto manuseava uma espécie de cuia de aço para mostrar os resquícios de ouro, após a intensa jornada de trabalho. O relógio em seu pulso não podia passar despercebido, indagado sobre o pertence, Sadir fez questão de dizer que o acessório era de ouro: “Aqui tem 22 gramas de ouro que extraí durante 20 horas de trabalho”, ressaltou. Joias como anéis e relógios de ouro são itens comumente encontrados entre os garimpeiros.

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Antes de encerrar a conversa, Sadir disse que temia pela ação da polícia: “Se eles tocarem fogo na balsa não sei o que farei da vida, investimos muito aqui e nós queremos apenas trabalhar”, completou. A balsa onde Sadir operava e outras dez estavam estacionadas às margens do Rio Madeira, na comunidade de Axinim, no município de Borba. Uma delas era de Gideão Bentes Sales, de 36 anos. O ex-produtor rural lamenta pela forma pejorativa como são tratados os garimpeiros. Faixas com a frase: “Queremos apenas trabalhar” foram postas nas balsas, como forma de protesto.

Mercúrio é usado em garimpo de ouro no Amazonas. (Ricardo Oliveira/CENARIUM)

“Falar que poluímos o rio com mercúrio é um pensamento ultrapassado, já não jogamos mercúrio no rio, agora filtramos e o colocamos em um recipiente, reaproveitamos porque é um produto caro. Agora, não vejo as autoridades fiscalizando os condomínios que fazem dos igarapés seus esgotos e, muito menos, fiscalizando os municípios que nunca resolvem o problema do lixão”, falou indignado.

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Durante a conversa com a equipe de reportagem no interior de uma balsa, Gideão Sales recebia a notícia que duas balsas foram incendiadas próximo ao município de Nova Olinda do Norte, a duas horas de voadeira no motor 20hp, distante de onde estava. A tensão tomou conta de todos que ali estavam. Informações preliminares davam conta de que o ato era parte de uma operação da polícia para conter a invasão de 600 balsas de garimpo no trecho do Rio Madeira, próximo à comunidade do Rosarinho, em Autazes (a 120 quilômetros de Manaus).

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“É muito triste essa situação, se a fiscalização aparecer aqui não sei o vou fazer. Eles podem fazer isso. Agora, vamos ter que ficar aqui até a noite para tomarmos uma decisão de grupo, se iremos subir rio acima ou permanecer”, finalizou a entrevista, às 15h do dia 27 de novembro de 2021.

Rio Madeira, sinônimo de esperança

O Vale do Madeira, região da Amazônia que abrange os municípios de Borba, Nova Olinda do Norte e Autazes, este último com cerca de 40 mil habitantes, a 120 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas, tornou-se sinônimo de esperança para centenas de pessoas.

Homem observa garimpeiro andando sobre estrutura no meio do Rio Madeira. (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)

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No início de novembro de 2021, de acordo com sites de notícias da região, duas balsas de garimpo começaram a dragar areia e cascalho do leito do Rio Madeira à procura de ouro. Depois de algumas horas, arquivos de áudio afirmando que havia ouro no local começaram a circular entre grupos virtuais dos garimpeiros. Em menos de uma semana, cerca de 600 balsas de garimpo invadiram a região para iniciar a corrida pelo ouro.

Parte dos garimpeiros investiu tudo que tinha, na esperança do retorno financeiro. Um deles, Edilon Ferreira Silva, de 38 anos, distinto dos demais, preferiu deixar a mulher e o casal de filhos em Manicoré, onde reside. Ele conta que está há dois meses longe de casa. Nascido na comunidade de Uruapinha, no município de Humaitá, Edilon se revezava com o cunhado na operação da balsa. “Até o momento, já conseguimos 25 gramas de ouro”, disse o garimpeiro.

Garimpeiro exibe pedra de ouro encontrada no fundo do Rio Madeira, no Amazonas. (Ricardo Oliveira/CENARIUM)

Entretanto, 24 horas depois de ter conversado com a reportagem, uma ação com agentes da Polícia Federal (PF), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Marinha e Aeronáutica, denominada Operação Uiara, obrigou que parte das balsas suspendesse suas operações. Outra pequena parte foi apreendida e, ao menos, 31 balsas e 69 dragas, equipamentos usados para sugar o leito do rio, foram destruídas na ação.

As ações federais de repressão ao garimpo ilegal ao longo do Rio Madeira, no Estado do Amazonas, avançaram no segundo dia, com a destruição de todas as balsas e dragas encontradas em pontos distintos ao longo do rio pelos agentes da operação. Uiara, nome dado à ação dos agentes federais, foi batizada com a palavra que tem origem na língua tupi e que significa “Mãe da Água”.