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19 de novembro de 2021
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Rômulo D’Castro – Da Cenarium

“Eu fui preparada por Nossa Senhora para aguentar a tristeza que foi perder o Magid”, esse é o relato de uma mãe que teve o filho assassinado. Magid Mauad França tinha 22 anos quando foi morto em Altamira, sudoeste do Pará. Málaque, mãe do jovem, sempre foi muito devota de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses. Fé que se fortaleceu desde a tragédia que deu fim à vida do filho. “Desde a morte do Magid, durante todo o ano, eu acendo velas pedindo força e justiça”, relata com a voz embargada e lágrimas nos olhos.

Málaque com Magid. A fé ajudou a suportar a dor. (Foto: reprodução)

A fé que ajuda Málaque é a mesma que move milhões de paraenses que a partir desta terça-feira, 5, vão acompanhar mais um Círio de Nazaré. Considerado um dos maiores eventos religiosos do País, de acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde 1793, o Círio era celebrado sem interrupção, atraindo grande público para as ruas de Belém. No ano passado, quando houve o auge da pandemia de Covid-19, no entanto, as manifestações presenciais foram suspensas e os paraenses acompanharam uma festa diferente, em casa, sem o calor da multidão e longe da imagem oficial da Santa.

Em 2021, a diretoria decidiu manter protocolos contra a pandemia encurtando o percurso da Santa até a Basílica erguida exatamente no local onde a imagem foi encontrada, em 1909. Mesmo sem poder acompanhar o Círio da forma como sempre conheceu, a advogada Fátima Couto, que este ano decidiu não ir pessoalmente às celebrações, mantém a fé. “Neste momento em que não pode haver aglomeração, vamos viver mais um Círio em casa, rezando com a família”. O cartaz, um dos símbolos do evento em 2021, faz referência à pandemia e à paz.

Cartazes dos Círios de 1926 e 2021. Símbolo é tradição há mais de 120 anos. (Fotos: Divulgação)

Larisse Caripuna, paraense de Alenquer, oeste do Estado, há cinco anos vive no Rio de Janeiro. Mesmo antes da pandemia passou a acompanhar o Círio de longe, mas com a mesma devoção e costumes. “É como se fosse um Natal para a gente. Eu, mesmo morando longe, sigo todos os rituais, comendo as comidas que a gente come [no Círio], assistindo às missas. Mesmo estando longe, eu consigo participar”, conta.

Promessas

Os pagadores de promessas do Círio são a representação mais pura de devoção à Santa. Sabrina Monteiro chora ao relatar o primeiro encontro com a padroeira. “Quem é filho de Nossa Senhora não é órfão. Toda vez que estou diante da imagem, me sinto muito amada, carregada por ela”, declara a autônoma que se mobilizou para que Santarém, município onde mora, tivesse seu ‘Círio particular’ a fim de agraciar quem não tem condições para ir até Belém. “Eu me mobilizei para que as pessoas aqui em Santarém tivessem a mesma experiência que eu tive em Belém. Queria muito que os meus irmãos  de Santarém sentissem a mesma coisa”, completa Sabrina, que também é coordenadora da Visita da Imagem Peregrina de Nazaré.

Sabrina Monteiro, na chuva, durante peregrinação da Santa, em Santarém. (Foto: arquivo pessoal)

O Círio de Nazaré 2021 começou oficialmente nesta terça com uma missa na Basílica. As restrições por causa da pandemia não permitirão procissões. Fiéis poderão acompanhar o evento em uma carreata com limite de veículos ou, ainda, em igrejas com capacidade reduzida. A recomendação é que todos usem máscara e álcool em gel para diminuir o risco de contágio pelo novo coronavírus. Quem não estiver em Belém poderá acompanhar remotamente, por meio do canal do Círio, no YouTube e da página, no Facebook. A TV Nazaré e a TV Cultura do Pará vão dedicar parte da programação a programas e transmissões do evento.

Programação 2021

05/10: Missa Solene de Abertura na Basílica Santuário, seguida de concerto musical na praça santuário (18h);

07/10: Missa Solene na Basílica Santuário para apresentação do Manto 2021 (18h);

08/10: Traslado da Imagem Peregrina para Ananindeua, em Carro Berlinda ou Carro dos Bombeiros, com trajeto limitado às grandes vias (Alm. Barroso, Rodovia BR-316, Rodovia Mário Covas, Avenida Dom Vicente Zico, Avenida Independência, etc, às 8h);

9/10: Descida da Imagem Original do Glória (12h), Missa da Trasladação no colégio Gentil (18h), Live da Decoração da Berlinda (19h30), Traslado da Imagem Peregrina para a Catedral em Carro de Bombeiros (horário a definir); 

10/10: Missa Solene na Catedral da Sé (7h) e Traslado da Imagem Peregrina da Catedral até a Basílica em Carro de Bombeiros, com descida na esquina da Av. Generalíssimo Deodoro (horário a definir); entronização da Imagem na Berlinda Oficial e trajeto até a Basílica Santuário para a Missa solene do Círio.

A Santa e o Círio

Os primeiros registros sobre Nossa Senhora de Nazaré são em 1653, quando os Jesuítas começaram a devoção à padroeira dos paraenses em Vigia de Nazaré, no Pará. O Círio, como conhecemos hoje, veio em 1793. No dia 8 de setembro daquele ano, o então capitão-geral do Rio Negro e Grão-Pará, Francisco de Souza Coutinho, que alcançou a cura de uma doença graças à intervenção da Santa, realizou uma grande missa com procissão. De 5 a 10 mil pessoas foram às ruas dando início à maior festa católica popular do planeta. De acordo com o site oficial do Círio, antes da pandemia, quando não havia restrições, o evento reunia mais de dois milhões de fiéis lotando todo o percurso feito pela imagem.

Entre os símbolos, a corda

Um dos símbolos mais significativos do Círio de Nazaré começou a fazer parte da festa em 1885, durante uma grande enchente que alagou a orla do mercado Ver-O-Peso. Os cavalos que carregavam a imagem da Santa ficaram atolados e um comerciante emprestou uma corda para que a berlinda fosse puxada.

O uso da corda, hoje para evitar que a berlinda seja derrubada pelos milhares de fiéis que acompanham o traslado até a Basílica de Nazaré, chegou a ser interrompido durante quatro anos após polêmicas com o clero da Igreja Católica, entre 1926 e 1930. Construída de Sisal (um cipó resistente originário da América Central), a corda mede 400 metros e, ao fim do evento, é repartida entre fiéis que a ajudam carregar.

O Círio em sabores

Difícil falar de Círio de Nazaré sem sentir água na boca por causa dos sabores típicos da festa. Vatapá de camarão, maniçoba e o famosíssimo pato no tucupi. Essas delícias, no entanto, surgiram fora do contexto religioso. A doutora em História pela Universidade do Pará, Sidiana Macedo, foi a fundo em suas pesquisas e descobriu que o pato no tucupi, por exemplo, era preparado por índios que cozinhavam a ave diretamente no tucupi e comiam com farinha e tucupi. A técnica de assar o pato, algo comum nos dias de hoje, é, digamos, recente. O prato foi incorporado ao Círio lá por 1920.

A maniçoba é bem mais antiga. A pesquisa da doutora Sidiana Macedo aponta registros do século XVI, quando o prato era apenas a maniva cozida e servia como acompanhamento para peixes… com pimenta, claro. Ainda segundo a pesquisadora, por mais que a maniçoba seja a cara da culinária paraense, não dá pra dizer que somos donos do prato. A especiaria já era preparada na Bahia, no mesmo período daqui.