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17 de abril de 2021

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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – Única cidade fora São Paulo a participar da abertura das comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, organizadas pela PUC/SP, Manaus evoca as memórias do poeta Mário de Andrade, cuja consciência tanto se nutriu dos mistérios da floresta amazônica, quando esteve na região no ano de 1927.

Autor do célebre Macunaíma, Mário de Andrade fez palestra em Manaus, no antigo cine Polytheama, e também viajou para Roraima, onde teve contato com o mito do Macunaíma, que viria a ser a maior inspiração para a escritura de seu clássico livro, cujo enredo é uma ode ao folclore brasileiro.

O poeta Mário de Andrade incorporou Manaus e a Amazônia ao processo cultural provocado pela Semana de 1922, fruto de seu interesse pelo Brasil profundo, especialmente o Norte e o Nordeste, desconhecidos no Sudeste do país. Para celebrar a importância da capital do Amazonas e o universo regional para o Modernismo nacional, a Fundação Municipal de Cultura e Turismo e Eventos (Manauscult), em uma ação integrada com o Conselho Municipal de Cultura (Concultura), apoia e participa do evento “Tradição e Ruptura – O Modernismo e suas Projeções na Cultura Brasileira. Brasil 1922: A Semana de Arte Moderna e seus Desdobramentos”, realizado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, nos próximos dias 6 e 7 de abril.

Assista ao evento ao vivo:

https://www.youtube.com/watch?v=yQET_fezQ7c

Secretário de Cultura de Manaus, Alonso Oliveira fará parte da cerimônia de abertura do evento
Os poetas Tenório Telles, Dori Carvalho e Zemaria Pinto são os convidados de Manaus a integrar a programação do evento

A Manauscult promove o evento em Manaus com o intuito de estimular a participação do público e, assim, a celebração ser partilhada com o público amazonense. A programação tem o apoio cultural da editora Valer.

Para o poeta, doutorando em Literatura e Crítica Literária pela PUC/SP e presidente do Concultura, Tenório Telles, Manaus será um elo desse aspecto da estética modernista, ressaltando a importância que a Amazônia teve como fonte de inspiração para os autores da primeira geração modernista. “Manaus é o ponto de ligação entre a ideia inicial da estética modernista, de buscar na Amazônia referenciais míticos e lendários, pois Mário de Andrade, antes de escrever Macunaíma, esteve aqui em diálogo com o universo amazônico, experiência que culminou naquela que foi sua obra fundamental: Macunaíma, uma das obras mais singulares da literatura nacional, representativa da vertente primitivista do modernismo. Por isso, a conexão das comemorações, que agora acontece em São Paulo como ponto de irradiação, mas mantendo esse vínculo com a região que sempre foi motivo de debate e reflexão, bem como fonte de inspiração para os autores modernistas”, destaca Telles.

Os interessados podem se inscrever gratuitamente clicando no link com o formulário do evento, além de acompanhar a programação local pela página da Manauscult, https://vivamanaus.com/.

O evento terá a participação de três escritores de Manaus convidados: Tenório Telles, mediando a Mesa Temática “O Pós-Modernismo de 22 na música brasileira”, com o professor doutor Paulo Zuben (Santa Marcelina); Dori Carvalho recitando o poema “Os Sapos”, do modernista Manuel Bandeira, e Zemaria Pinto apresentando poemas de Oswald de Andrade.

O presidente da Manauscult, Alonso Oliveira, participará, no dia 6 de abril, da cerimônia de abertura, representando o prefeito de Manaus, juntamente com a reitora da PUC/SP, profª dra. Maria Amália Pie Abib Andery, diretora da Faculdade de Filosofia, Artes e Letras da PUC/SP, profª dra. Ângela Lessa Cavenaghi, prof. dr. Marco Luchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras, Alexandre Youssef, secretário de Cultura de São Paulo, e a profª dra. Diana Navas, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC/SP.

Após cem anos

Capa do catálogo da Semana de Arte Moderna em 1922 (Reprodução/Internet)

Cem anos se passaram e a Semana de Arte de Arte de 1922 continua provocando reflexões, debates e ainda hoje influenciando os destinos do país inspirando artistas, escritores, estudiosos da história e da cultura brasileira. O poema de Mário de Andrade “Descobrimento” expressa com rara sensibilidade e clareza os propósitos da Semana e, sobretudo, seu compromisso com o ser humano brasileiro:

Descobrimento – Mário de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo

Na minha casa da rua Lopes Chaves

De supetão senti um friúme por dentro.

Fiquei trêmulo, muito comovido

Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!

muito longe de mim

Na escuridão ativa da noite que caiu

Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,

Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,

Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

O evento, que se encerra em São Paulo no próximo dia 7 de abril, terá desdobramento em Manaus, com a realização, no dia 29 de abril, de uma programação com palestras, mesas temáticas e apresentações artísticas realizadas por escritores e intelectuais amazonenses, no período da manhã e da tarde.

A programação local será realizada pela prefeitura de Manaus por meio da Manauscult e Concultura e será transmitida on-line.

A Semana de 1922

A Semana de Arte Moderna foi um evento marcante com profundas repercussões na cultura brasileira. O Seminário Brasil 1922: A Semana de Arte Moderna e seus Desdobramentos é um projeto concebido com o propósito de inaugurar as celebrações da Semana de Arte, antecipando as comemorações que culminarão em 2022, ano do centenário, com a realização de um congresso para rememorar esse importante acontecimento cultural e avaliar seu significado para a construção do Brasil contemporâneo.

A programação da semana em 1922, entre os dias 13 e 17, teve a participação de artistas que se tornaram seminais na arte brasileira, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Villa Lobos, Guiomar Novaes (a pianista), Menotti Del Picchia, Graça Aranha, Ronald de Carvalho, entre outros.

De acordo com o Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária, o objetivo do seminário é oportunizar uma reflexão sobre a importância e as conquistas da Semana de 22 para o desenvolvimento artístico-cultural do Brasil, sobretudo avaliando a contribuição dos seus artistas para o enriquecimento do patrimônio cultural, com ênfase na expressão literária. Tem também o intuito de mobilizar o mundo acadêmico da PUC/SP e outras universidades, além de chamar a atenção da sociedade para as conquistas culturais modernas e seus desdobramentos históricos.

O evento vem sendo organizado desde 2020, com o propósito de culminar em uma grande programação em 2022, ano celebrativo do centenário desse que foi um divisor de águas para transformar as artes, a ciência e o olhar do povo brasileiro sobre si mesmo.

Trata-se de uma atividade do Programa de Literatura e Crítica Literária, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a coordenação da profa. Diana Navas, extensiva à participação de outras instituições educacionais e o público em geral.

O público-alvo do evento é de estudantes universitários, professores, pesquisadores e leitores interessados na temática amazônica.

“Abaporu” (1928) inaugurou o movimento antropofágico dentro do modernismo brasileiro. É a tela brasileira mais valorizada do mundo (Reprodução/Internet)

Aspectos da Semana de Arte Moderna

Na análise do poeta e doutorando em Literatura e Crítica Literária, Tenório Telles, a Semana de Arte Moderna teve, ao menos, três aspectos fundamentais, sendo o primeiro deles a questão da liberdade de expressão e criação artística, defendida pelos artistas que participaram do movimento. “Os modernistas defendiam que cada artista fosse um pesquisador e tivesse a liberdade para criar novas formas de expressão artística, tudo isso em oposição à visão acadêmica que prevalecera até então no cenário literário nacional, influenciado pela concepção estética parnasiana, que defendia uma visão formalista da arte e o culto dos valores clássicos”, observa.

Outro ponto destacado por Telles foi a defesa de um novo olhar sobre o Brasil, um olhar crítico e reflexivo sobre os grandes problemas sociais e econômicos do país. “Os escritores modernistas defendiam que o artista ao invés de se voltar para o passado, deveriam tematizar em suas obras o presente do país, enfatizando, principalmente, as grandes questões enfrentadas pela sociedade brasileira nas suas diversas regiões”, ressalta.

Um terceiro aspecto, pontuado por Tenório Telles, versa sobre a defesa, pelos modernistas, de que cada poeta, romancista, pintor deveria, por meio de sua arte, contribuir para a atualização cultural, a renovação e o processo de transformação da realidade histórica nacional. “Manuel Bandeira, no seu célebre poema, Poética, deixa claro a posição da nova estética”:

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Esse espírito iconoclasta, questionador e humorado teve em Oswald de Andrade seu maior representante como se percebe no texto “Erro de Português”:

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

“Percebe-se, portanto, que os artistas modernos defendiam uma reavaliação não só do processo artístico, mas da maneira como o Brasil era pensado até então”.

“A Semana de Arte de 1922 mudou a literatura e a forma de olhar a realidade brasileira e teve profundas repercussões sobre os jovens escritores em todas as regiões, gerando um processo de renovação cultural”, afirma Telles.

Para o poeta, trata-se de um evento não apenas para celebrar, como também para avaliar o que a Semana representou no processo histórico nacional.

Segundo o ensaísta Ademir de Godoy Bueno, um dos organizadores do evento e doutorando na PUC/SP, as palestras e as mesas temáticas versarão sobre temas como a música, artes plásticas, a poesia, os desdobramentos da Semana de 1922 nas mais diversas expressões artísticas e nas diversas regiões. Entre os precursores da literatura moderna brasileira, três merecerão destaque e terão suas obras debatidas: Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida.

“A Semana de Arte Moderna foi um acontecimento marcante e definitivo na cultura brasileira, gerando mudanças profundas na maneira de se pensar o país e estabelecendo novos conceitos e possibilidades de compreensão e intepretação do processo histórico nacional. Foi uma experiência que forjou um novo olhar sobre a realidade e o povo brasileiro”, pontuou Godoy, acrescentando que os debates em torno dos fundamentos e do legado da Semana de 22 são oportunos, em razão das circunstâncias vividas pelo Brasil, e podem contribuir com o processo de construção de uma nova perspectiva estético-social para o país.

Depoimento do escritor Tenório Telles sobre a passagem do modernista Mário de Andrade por Manaus