‘É frustrante parar o cuidado aos pacientes’, diz enfermeira indígena com Covid-19

Luana Dávila – Da Revista Cenarium

A enfermeira indígena Keite Fernandes Barbosa, de 33 anos, da etnia Tukano, foi diagnosticada com o novo Coronavírus no último dia 11. Aliado ao medo e a preocupação causados pela doença, está a frustração por interromper a assistência médica a 838 aldeados do Alto Manaquiri e Baixo Castanho, no Amazonas.

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“A questão da Covid-19 para o profissional da saúde é ainda mais ruim, porque a nossa missão é fazer o acompanhamento do paciente e interromper esse processo, esse cuidado, é frustrante”, disse a enfermeira indígena em entrevista à REVISTA CENARIUM.

Como todos os profissionais que atuam na linha de frente contra o vírus, Keite se doou, mas agora precisa ficar isolada, dar atenção à própria saúde, para se recuperar e, posteriormente dar continuidade à luta contra a pandemia.

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“Bem no início houve perda total do olfato e paladar. Senti dores nas costas muito semelhante à angina, taquicardia e taquipneia, além de um cansaço muito forte. Agora, no momento, estou apresentando melhoras, mas ainda tenho dores no corpo e o desconforto respiratório já começou a diminuir”, conta Keite.

Sobre sua rotina, a enfermeira conta que sai da casa em que mora, em Manaus, rumo ao Porto Ceasa. De lá faz a travessia pelo Rio Negro, numa lancha, durante 10 minutos, pega um carro de aluguel e viaja 1 hora e 30 minutos até o município de Careiro Castanho, no Baixo Solimões, e segue para as aldeias. São, em média, 15 dias longe de casa.

“Quando chego no Careiro Castanho, passo dois dias fazendo um cronograma das aldeias que irei prestar atendimento, bem como o levantamento de medicamentos necessários. Aí sigo para as aldeias do baixo Manaquiri, que são as mais populosas. Lá passo de 6 a 7 dias e, posteriormente, sigo para as aldeias do alto Castanho, onde fico de 5 a 6 dias. Ao todo, atendo 838 indígenas”, explicou a enfermeira que atua há onze anos na profissão. Keite pontuou também que a estada em cada aldeia depende da necessidade de cada paciente.

Enfermeira Keite, em atendimento na Aldeia Iboca, no Alto Manaquiri (Arquivo Pessoal)

Questionada sobre as invasões irregulares em terras indígenas, o que pode contribuir para o aumento de mortes pela Covid-19, como já anunciam instituições em entidades ligadas à etnia, a enfermeira disse que tudo depende da organização da aldeia.

 “Na realidade, a invasão do branco vai depender da organização da aldeia. Tem aldeias em que as lideranças têm maior controle da entrada de não índios e quando a pessoa não é bem-vinda, é convidada a se retirar. As aldeias do Amazonas têm esse controle, mas tem outras que não têm”, disse.

Sobre os cuidados para prevenir a doença, ela diz que os indígenas estão seguindo as orientações das autoridades de saúde fazendo a devida higienização e mantendo o distanciamento social. “O que facilita é a presença dos agentes de saúde que procuram orientar o “parentes”, como nos tratamos, com dados.

Equipe da Dsei Manaus na Aldeia Juma I, no Baixo Castanho (Arquivo Pessoal)

Testes rápidos chegam às aldeias

O coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) de Manaus, Mário Ruy Lacerda Júnior, disse à REVISTA CENARIUM que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) tem atendido às solicitações dos Distritos com testes rápidos que estão sendo levados para as aldeias.

“O Dsei tem recebido testes rápidos e toda vez que nós solicitamos, a Sesai está nos atendendo. Já utilizamos testes nas aldeias, sim, onde houve a necessidade. Em Terra Preta, onde teve casos, foi utilizado. Nessa terça-12, a equipe estava fazendo testes rápidos na Aldeia Três Unidos, porque houve necessidade. Disponibilizamos também para outros polos”, explicou o coordenador do Dsei Manaus destacando que há um protocolo a ser seguido para uso dos testes rápidos, como a contabilização dos dias de sintomas.

277 indígenas com Covid-19 no país

Segundos dados divulgados pelo Boletim Epidemiológico da Covid-19, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), desta quinta-feira, 14, em todo o Brasil há 277 indígenas infectados pela doença e 19 mortos. A maioria dos casos está concentrada na Amazônia, que registrou até ontem, 13, 220 índios confirmados com o novo Coronavírus e 16 mortes. E no Amazonas, região indígena mais populosa do país,  187 casos confirmados e 13 mortes.

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